Textos

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Imagine cachorros latindo na madrugada. Pense na sensação trazida pela brisa leve e repentina que cai com a noite e no som de folhas secas sendo sopradas pelo vento. Sinta a insegurança de ouvir um estalido ao longe e lembre-se do arrepio que brota na pele quando encaramos o limite de uma floresta.

Foi o que a minha bisavó me disse em um fim de tarde qualquer, da rigidez estrepitante de sua cadeira de balanço. Com sua voz gasta e ansiosa, contou-me que Eles correm ao redor do globo perseguindo a escuridão, atraídos por ela como insetos pela luz. Que atravessam oceanos como se fossem poças d’água e desertos como se não existissem. Que para Eles o globo é, na verdade, uma planície. Perguntei-lhe o que são, mas ela apenas balançou a cabeça e  nada disse.

Nos últimos anos de sua vida, minha bisavó conversava como se estivesse sonhando ao contrário, olhando fixamente para o nada, presa em suas próprias memórias. Naquela época, ninguém prestava muita atenção nas estórias mirabolantes que contava, mas eu, já então vítima de uma curiosidade infantil aguçada, memorizava tudo. Ainda ouço suas palavras e o ritmo de sua respiração ao me contar que a origem dos Corredores está perdida em um passado infinito, mas que sua contínua presença tem a ver com morte e renascimento, e com transformação.

Antigas lendas contam que seu movimento cíclico faz a Terra girar e os chamam de As Sombras que Correm. Através dos séculos, registros de sua existência surgiram e desapareceram nos buracos negros da memória coletiva. Hoje poucos sabem. Alguns desconfiam porque ouviram estranhas estórias e, sentados ao redor de uma fogueira absorvendo, pensativos, seu calor, resolveram guardá-las. Alguns sonham. Alguns sentem. Alguns acreditam porque sabem que, de alguma forma, tudo o que tem nome existe. Minha bisavó era uma dessas pessoas.

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21h07min. Outra noite quente e seca acaba de começar na pequena Limea, cidadezinha produtora de poeira e miséria que insiste em existir entre os estados Mato Grosso e Tocantins, na região centro-oeste do Brasil. Igual a todas as outras noites nesse fim de mundo aonde vim parar pensa Guilhermina ao entrar no Chupacabra, único bar da região. Antes da quarta dose, já suada e soluçando, Guilhermina é tomada por um súbito mal-estar que faz seu corpo inteiro se contrair em alerta, deixando-a quase sóbria.  Ela se levanta do banco vermelho rasgado e olha em direção à rua, enquanto os outros fregueses do bar a observam curiosos e esperam o momento de soltar a primeira piada. Guilhermina sente um estranho odor, ao mesmo tempo em que vê a poeira sendo levantada lá fora, mas mais que isso não percebe. Apenas sente e, sentindo, retorna à bebida.

01h27min. Na margem sul do Geirangerfjord, em algum lugar da Noruega, Mikah está sentado em uma confortável poltrona de veludo marrom bordado, com um artigo no colo e uma caneta que se balança inquieta por entre os dedos da mão esquerda. Depois de bebericar o último gole do chá de amora com gengibre, mantendo os olhos no papel a sua frente, ele deposita lentamente a caneca sobre a mesinha de centro. Após realizar os movimentos rotineiros dos que permanecem acordados quando deveriam dormir, Mikah abrirá a cortina da janela de seu escritório e olhará para a noite. Enquanto Katharine dorme ruidosamente no cômodo ao lado, ele encara pensativo a escuridão lá fora. Mikah desconfia.

03h02min. Ao sul do continente Europeu, nas estreitas ruas de Lisboa,  faz frio e um gato velho e gordo é surpreendido por um carro que, em alta velocidade, apita descontroladamente.  Arrancado de sua inércia, o gato se arrasta ofegante para a calçada da padaria Solar, onde é novamente pego de surpresa por um súbito deslocamento de ar. Dentro de seu corpo gasto de felino, uma minúscula veia arrebenta, provocando uma dor afiada que não falha em derrubá-lo. O gato, então caído, vê e arreganha os dentes num gesto seco de ameaça. Com o esforço, no entanto, seu corpo perde consistência e ele desliza para fora de si mesmo. Amanhã acordará em outra pele, nova e macia: seu antigo corpo será recolhido e jogado no Tejo, mas, provando que os gatos realmente têm sete vidas, ele lembrará.

12h50min. É começo de tarde em Seul e o menino Hun Iake brinca distraído com seu pêndulo de Newton. Os pais não estão em casa e hoje o menino não foi à escola, pois não se sentiu bem pela manhã. Sentado no grande tapete branco e felpudo da sala, lembra-se, de repente, do pesadelo que tivera na noite anterior. Imagens desconexas invadem sua cabeça, coisas esguias que mudam de lugar num piscar de olhos, formas retorcidas, rostos pálidos e esvoaçantes. Tentando fugir das sombras, Hun corre na direção contrária, na direção da luz nascente, mas uma delas o segura delicadamente pela mão esquerda, e, no momento em que se encaram,  Hun sente uma vontade incontrolável de gritar. Mas não grita, apenas sonha.

9h22min. Perto do Reservatório de Hirakud, no interior da Índia, Lalit abre os olhos com dificuldade e  tenta se por de pé. Depois de alguns paços vacilantes, o menino sente uma onda de náusea que o faz deitar novamente no solo árido e quente. Lembra-se de Abhi convidando-o para explorar o parque Nehuru no final da tarde do dia anterior e do amigo contando-lhe sobre sua viagem à Inglaterra para visitar os tios. Lembra-se de si mesmo distraído chutando pedras, desejando ter parentes tão legais quantos os de Abhi, quando um silêncio pegajoso cai ao redor deles e o tecido fino da realidade se rasga, engolindo-os. Cinquenta anos depois, sucumbindo ao sono avassalador, Lalit revisita o acontecimento e grita até perder a voz, até perder a vida.

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Novembro de 2007

Chovia torrencialmente e o frio dolorido do inverno europeu fez Elodie buscar refúgio na patisserie mais próxima. Estava em um bairro turístico, nos arredores da Tour Eiffel, e sabia que naquela região tudo custava o triplo do que valia, como também sabia que os donos de  estabelecimentos comerciais como aquele não gostavam de turistas que não consumiam. 

Entrou e ocupou uma das mesas redondas perto da enorme janela lateral. Não tinha fome, nem muito dinheiro; apenas uma cópia de O Mundo de Sofia, o qual pretendia ler até que a chuva estiasse. Sentindo o alívio imediato trazido pelas ondas de calor que irradiavam do sistema de calefação, respirou fundo e sorriu. Se viessem importuná-la, estaria preparada para recitar algumas estrofes da Déclaration des Droits de l’Homme et du Citoyen. O pensamento a divertiu – imaginou os turistas com suas caras redondas e imbecis olhando a cena sem entender nada – e ela sorriu novamente.  

Notou, então, um garçom parado ao seu lado, observando-a curioso. Elodie pensou em fingir que não compreendia francês e estava perdida, quando uma voz sedutora e educada interrompeu seu raciocínio.

Voulez-vous  quelque chose, mademoiselle?”

“Oui. Je veux un enfant.” Não resistindo à tentação e citando um de seus filmes favoritos.

Ele a encarou por um tempo, como que em estado contemplativo, até que ambos caíram na gargalhada.

“E se você quisesse algo para beber...” Perguntou ele, ainda com sorriso nos olhos. “Preferiria um cappuccino ou um chocolate quente?”

“Um cappuccino”

“E se você escolhesse um cappuccino, seria com ou sem cobertura?”

“Sem” Respondeu ela, percebendo a brincadeira.

“E se o seu cappuccino fosse sem cobertura, você escolheria o médio ou o grande”

“O pequeno”

“Bem, você está com sorte, cappuccinos pequenos sem cobertura são oferta da casa por hoje!” E saiu em direção ao balcão de pedidos.

Aquilo era progresso. Não só conseguira um lugar quente e confortável para ler, como também ganhara um café. Respirou aliviada. Seu cartão estudantil havia expirado e ela precisava do dinheiro que tinha para o metrô, caso contrário, teria que voltar a pé.

Elodie respirou fundo, abriu o livro na página 240 e começou a ler um trecho sobre os cartões-postais de Sofia, tentando não pensar no rapaz que acabara de atendê-la. Falhou. O rapaz tinha deixado uma impressão. Ele era alto, muito bonito, e parecia ser bem jovem também. Vinte e dois, talvez? Talvez menos. Ralhou consigo mesma por estar reagindodessa maneira a um desconhecido que, por acaso, conhecia um filme de Godard. Obrigou-se a ler o livro. Se os anos de estudo haviam-na ensinado alguma coisa, era a forçar a concentração quando ela se insistia elusiva.

Assim, Elodie lia, se não atentamente, com toda a atenção que conseguia conjurar, as palavras: "Querida Hilde! Quando você ler este cartão já teremos conversado ao telefone sobre o trágico acidente fatal que ocorreu por aqui...” 

 _ “Jostein Gaarder!” disse ele, observando a contracapa. “Já li este, mas gostei mais do ‘O Dia do Curinga’, você conhece?”

_ “Bien sûr.” Respondeu apressada. Ele, que já deveria estar acostumado com reações como esta, depositou o café na mesinha sorrindo.

“Voilá!”

“Merci.”

Depois de um longo gole de café, decidiu ser direta.

“Olha, eu só entrei aqui pra fugir da chuva e ler um pouco. Não consegui chegar até o metrô e precisava me aquecer. Não tenho dinheiro pro café, desculpa.” 

“Tudo bem, não se preocupe. Como eu disse antes, o cappuccino hoje é por conta da casa.” Fez uma graça com a bandeja e saiu em direção a outra mesa.

Elodie o acompanhou com o olhar, e quando voltou ao livro, voltou desorientada. Leu três capítulos inteiros antes de se levantar e vestir seu cachecol e luvas; o frio lá fora continuava, mas a chuva havia dado uma trégua. Ao sair na rua e seguir em direção do metrô mais próximo, ouviu passos apressados atrás de si, e, ao se virar, deparou com o garçom, que vinha a paços largos e quase a alcançava.  Parando em sua frente, passou a mão direita pelos próprios cabelos, como se estivesse envergonhado, e lhe entregou um bilhete. Elodie abriu o papel e viu que ele continha o número de um telefone.

“É o telefone da minha casa, meu celular está quebrado. Se você quiser, me liga pra gente sair e  conversar, tomar um café...” Gaguejou no final.

“Vou ligar sim. Obrigada por hoje!” Ele devia ser realmente muito jovem.

"Como você se chama?"

"Elodie. Et toi?"

"Jacques. Je m’appelle Jacques."

Outubro de 2013

Elodie assistia, da janela de sua cozinha, o mundo se afogar em chuva.

Voltando do trabalho naquela tarde, ela havia caminhado na chuva pelo tempo diminuto entre  a saída do metrô e seu prédio, o bastante para fichar encharcada. A luz de outono, que se projetava fraca e preguiçosa, conseguia iluminar apenas a superfície da mobília, destacando seus contornos insólitos e arredondados, conferindo ao pequeno apartamento um ar lúgubre e fantasmagórico. Elodie tirou a jaqueta grudenta, jogando-a com alívio sobre um dos aquecedores da sala: ao sentir o calor irradiar envolvente e tranquilizante, fechou os olhos e relaxou. Quando estava razoavelmente aquecida, foi em direção ao minúsculo banheiro e despiu-se.

Na água morna da banheira, olhando para o teto, Elodie sentiu-se inquieta. Culpou a chegada do inverno e, em voz alta, praguejou, embora sem saber direito contra quem ou o quê. Se estivesse sendo sincera consigo mesma, admitiria que, há tempos, inquietude era o estado de espírito dominante. Desde o acidente, sentia-se em dissonância com o mundo ao seu redor: como se o ponteiro de uma bússola interior girasse em busca de um norte que já não existia. Lembrou-se, então, do colapso emocional e do tempo na Maison de Retraite.

As semanas na clínica haviam se arrastado monótonas. A memória mais vívida era de uma tarde agradável de primavera, na qual se esticara sobre uma das enormes cadeiras brancas cheias de almofadas, e planejara, sonolenta, viagens. Naquele dia, sonhava acordada com os fiordes salpicados pelo sol da fria primavera escandinava, quando, de repente, pensou em Jacques. O mais correto seria dizer que ela sentiu Jacques, ou tornou-se consciente de sua presença. O pensamento foi seguido por uma sensação de dormência, que depois de alguns minutos desapareceu completamente, deixando vácuo atrás de si. Naquela mesma semana, saiu da clínica e descobriu que Jacques havia tentado suicídio e estava em coma.

Agora, quatro meses depois, ouvindo a chuva bater nas calhas e janelas e pensando naquele garçom que conheceu numa patisserie qualquer, ponderou a vida como um quebra-cabeça de coincidências e possibilidades. Num impulso, saiu da banheira e ficou parada sobre o tapete, deixando as gotas escorrerem soltas e secarem sozinhas. Guardava muitas mágoas de Jacques, e cada uma delas tinha sua razão de existir, mas também guardava com carinho os momentos felizes. Decidiu naquele momento, nua sobre o tapete, tomar uma atitude proativa: visitaria Jacques no hospital e eles teriam, pelo menos, um ritual de despedida.

Mais do que o bebê tivera, pensou, e por causa dele...

Não, argumentou consigo mesma, não foi culpa dele. Pelo menos, não exclusivamente. Depois de uma briga  de proporções homéricas, ela atravessou a rua desatenta e um carro a atropelou, um acidente cuja consequência fora um aborto. Ponto final. Foi uma casualidade...

... que poderia ter sido evitada, se ele não fosse tão egoísta e  imaturo.

Silenciando momentaneamente aquela discussão,  decidiu ligar para um número que sabia de cor, o mesmo que lera num bilhete dobrado há mais de cinco anos. Ligou e desligou duas vezes consecutivas. Apenas na terceira, reuniu coragem suficiente para deixar que o telefone tocasse até alguém responder.

“Allô” Disse uma voz rouca e carregada. Era Elaine, a mãe de Jacques.

“Oi Elaine. C’est moi... Elodie." Esperou uma resposta que não veio e depois acrescentou “Como você está?”

“Eu esperava a sua ligação antes e estou como você pode imaginar.”

“Sinto muito mesmo Elaine, nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer” Disse, ignorando o tom agressivo e a acusação na resposta de sua ex-sogra. "Como ele está?”

“Os médicos dizem que o quadro dele estabilizou, mas que...” A voz de Elaine vacilou. “... mas que, por causa do tempo que ele ficou debaixo d’água, o cérebro não está respondendo aos estímulos. Não sabemos quando vai acordar”.

Elodie sabia que o certo seria trocar quando por se, mas não disse nada.

“Elaine, estou ligando pra avisar que vou visitá-lo amanhã.”

“Por essa eu não esperava”

“Nem eu.” Respondeu lacônica. “Mas decidi que quero e preciso”

“Que engraçado, agora você quer e precisa? Onde estava essa disposição toda quando ele foi falar com você? Quando ele te ligou cento e tantas vezes pra se desculpar ...”

“Eu não quero brigar Elaine, liguei apenas para comunicar minha decisão! Adieu.” E desligou.

Fechou os olhos, respirou fundo e prendeu o ar dentro de si, soltando-o depois lentamente.

Um fantasma a menos.

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Jacques expulsava o oxigênio de seu corpo e lentamente  deitava no chão da piscina. A água afastava o vazio de sua realidade e, mesmo que por apenas alguns segundos, ele se sentia um ser humano novamente. Não o garoto, cuja carreira em ascensão provocara um mudança radical em sua relação com o mundo e com as pessoas que até então haviam sido seu suporte financeiro e emocional. Não o modelo que enfiava dois dedos goela abaixo no intuito de expulsar a comida recém-ingerida, assistindo-a desaparecer na privada em uma espiral amarronzada e mal-cheirosa. Não o homem que chamara Elodie de gorda ridícula, escorraçando-a escada abaixo, provocando o acidente que a fizera abortar.

Na água ele era apenas Jacques.

Jacques lutando contra a vontade esmagadora de respirar e se afogar no vazio.

Jacques residente do tradicional Arrondissement de Passy.

Abriu os olhos quando seu corpo não conseguia mais suportar a falta de oxigênio. Do fundo da piscina, viu então o contorno do telhado da casa, vacilante e impreciso como uma pintura impressionista. Tentou ignorar a agonia em seu peito. Não obtendo sucesso – seu corpo precisava desesperadamente de ar  –, começou a emergir. Quando chegou à superfície e pôde respirar, sentiu como se algum órgão vital houvesse implodido. Sua respiração rompeu dolorosa e ofegante,  e em muito lembrava o impacto dos cascos de cavalos em uma corrida: cada pedacinho de seu pulmão brigava pelo ar que lhe era devido, assim como cada encontro firme entres os cascos e o chão provocava rítmicos estrondos que só cessariam quando a corrida acabasse.

De volta em seu quarto, sentou-se na cama quebrada. Fixou seu olhar na mesma porta onde, há cerca de cinco meses, as batidas se repetiam insistentes. Lembranças corriam por sua mente com lâminas afiadas. A raiva.

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“Jacques! Ces’t moi. Ouvrez la porte!"

“Jacques!”

Batidas mais fortes agora.

“JACQUES! Abre a porta, s’il vous plait, precisamos conversar!

Jacques, semi-acordado, senta-se na cama com dificuldade. Sentindo um misto de frustração e raiva que crescia a cada batida, lembra-se do jantar no qual ela anunciou o término do relacionamento como se estivesse anunciando a previsão do tempo. A raiva começa a se espalhar por seu corpo como um câncer, obstruindo sua visão.

Porra, ela não terminou tudo? Não jogou as coisas numa mala e saiu batendo a porta da casa que ele comprou, com o dinheiro da profissão que ela desprezava?

Do corredor, a voz de Elodie soava cada vez mais alta:

"JACQUES, OUVREZ LA PORTE, PUTAIN DE MERDE!"

“C’est qui?” Perguntou pra deixá-la mais irritada.

“Putain! Você sabe muito bem quem é. Abre essa porta de uma vez!”

Ele abriu e a encarou com o desprezo que julgou adequado. 

"O que você quer? Já não levou todas as suas tralhas?" Disse, meio rosnando e meio falando.

Elodie  começou a chorar. Subitamente, seu corpo dobrou-se sobre si mesmo, como que contorcido por uma súbita dor de barriga. Por um momento ele considerou se abaixar para acariciar seus cabelos, imaginou-se sussurrando baixinho em seu ouvido, mas algo o fez hesitar. Lembrou-se do que ela havia dito antes,  “precisamos conversar”,  e teve um presságio: Elodie tinha vindo dizer o indizível. Sua ex-namorada havia achado alguém melhor do que ele e isso ele simplesmente não podia suportar. Em menos de um segundo, a confusão e a revolta arrebentaram soltas e agressivas, esguichando de seus poros como água de uma mangueira. 

Por causa do excesso de adrenalina que seu corpo havia produzido naqueles poucos minutos, sua memória do evento era arisca. Sabia que havia gritado com ela, empurrando-a corredor abaixo, insultando-a de vadia traiçoeira e gorda filha da puta. Lembrava-se apenas, tendo plena certeza de que para sempre se lembraria, do momento em que ela olhou-o com ódio profundo e cuspiu em sua cara.

Elodie saiu correndo. Jacques ficou parado na calçada da casa que comprara há séculos. Três horas depois, a ligação da mãe de Elodie, histérica, dizendo que sua filha fora atropelada e que havia perdido a criança.

“Que criança?” Perguntou atônito, sentindo o pânico embaçar seus sentidos.  Depois desmaiou.

___________

Pela primeira vez desde o acidente, sentado naquela cama quebrada, Jacques deixou-se absorver completamente pelo fantasma que o perseguia desde então: a culpa por ter ferido a vida da mulher que um dia amara, que só lhe fizera bem. Chorando, convidou a escuridão.

Jacques, que em posição fetal se desintegrava, ouviu o suspiro de uma voz aguda e melodiosa que parecia cantar.

Can...

Caaaaaannnn...

Com um sobressalto, reconheceu imediatamente a voz do cantor que, nos primeiros anos de sua adolescência, havia sido seu favorito. O suspiro veio de novo, mais alto desta vez.

...anybody...

Jacques não conseguia compreender aquilo. Era como se Freddie Mercury estivesse ao seu lado, cantando palavras que se desenrolavam sedutoras. Sentiu então sua própria voz trêmula responder:

"find me"

A continuação soou clara como água:

...somebody to love!

E lá estavam as inconfundíveis notas de piano que abriam a canção tão famosa. Olhou ao redor do quarto, mas não viu nada. Constatou que estava doido. A canção, no entanto, continuava e ele sentia o desejo insano de acompanhá-la.

… can barely stand on my feet. Take a look in the mirror and cry, Lord, what you're doing to me!

Jacques levantou-se e caminhou em direção à porta.

I have spent all my years in believing you, but I just can't get no relief, Lord!

Somebody, somebody

Pelos corredores imundos da casa, Jacques, cantando, passou. Entrou na garagem, embarcou no carro e todos os membros da banda embarcaram com ele: Roger ao seu lado, Freddie no banco de trás, sentado entre Brian e John.

Everyday - I try and I try and I try - but everybody wants to put me down, they say I'm goin' crazy. They say I got a lot of water in my brain... Got no common sense! I got nobody left to believe

Yeah - yeah yeah yeah

Parou na frente da casa de repouso onde Elodie estava internada e saiu do carro sussurrando a melodia. Como facilidade, ganhou acesso aos corredores e seguiu em direção ao jardim. Tinha a distinta sensação de que a encontraria lá. Ao seu redor, os acordes ecoavam otimistas em todas as paredes.

Got no feel, I got no rhythm. I just keep losing my beat…

I'm ok, I'm alright

Começou a pensar que havia se perdido em um labirinto de corredores, quando percebeu estar dentro de uma sala redonda, sem portas ou qualquer entrada visível. Como havia ido parar ali? Olhou ao redor desesperado.

I just gotta get out of this prison cell! Someday I'm gonna be free, Lord!

Mas os outros estavam com ele. Encostado na parede, o guitarrista tocava sua guitarra indiferente. Jacques sentiu então algo pontudo  sob seu pé esquerdo e, ao se abaixar pra ver o que era, encontrou uma chave posta sobre a fechadura, pronta para ser girada.

Sentiu medo, mas, naquele momento, descobriu em si a certeza de que ele e Elodie só poderiam recomeçar suas vidas quando ele se explicasse, quando ele pedisse perdão e se redimisse de alguma forma.

Find me. Somebody to love. 

Find me. Somebody to love.

Find me. Somebody to love.

Find me .Somebody to love.

Somebody, somebody

Girou, então, a chave. Sob o peso de seu corpo, a porta cedeu e pareceu alongar-se como uma prancha ou trampolim. Da sala redonda, os quatro assistiram-no mergulhar na escuridão, suas vozes se alternando de forma harmoniosa no último refrão.

Somebody, somebody,

Somebody find me 

Somebody find me somebody to love

Can anybody find me…

Somebody to loooooove!

Jacques mergulhou e só abriu os olhos quando seu corpo não conseguia mais suportar a falta de oxigênio.

Find me, somebody to love.

St-James-Park,-verão-2010

“Oi, Agnes! Preciso levar as últimas caixas pro segundo andar. Será que você pode me ajudar?”

“Claro. Ajudo sim.”

Enquanto subia as escadas com algumas caixas vazias, Agnes refletia sobre o velho Anselmo. Por prestar atenção nos sinais que flutuavam soltos, e que se não fosse por ela passariam despercebidos, ela sabia que a função dele era catalogar o arquivo pessoal dos antigos donos do prédio, uma família de diplomatas que, durante a década de noventa, decidira mudar-se para uma cidade mais moderna e central.

Desde que o departamento fora transferido para lá, Agnes se surpreendia  fantasiando sobre como o prédio teria sido antes de se tornar propriedade do governo. O que ela fazia era rebobinar a fita do tempo para poder visualizar o fabuloso edifício em seus dias de glória: um lugar de jantares importantes, um centro de convergência de notícias sobre o mundo e de pessoas que viajavam pelos seus infinitos cantos.

A grande maioria de seus colegas não demonstrava qualquer simpatia ou interesse pelo velho, e, por esse motivo, parecia não enxergá-lo. Era de conhecimento geral, porém, que ele aparecia e desaparecia pelos sinuosos corredores carregando livros e documentos.

De vez em quando, Agnes assistia-o observar com uma tristeza distante os quadros mofados e o papel de parede que descolava decadente dos cômodos abandonados, embora raramente lamentasse em voz alta. A fragilidade do corpo do velho era contradita pela sagacidade de sua mente e pelos grandes olhos azuis claro, os quais conferiam-lhe um ar de perpétua  sabedoria auto-suficiência.

Agnes ponderava tudo isso quando, de repente, se deparou com aqueles grandes olhos virados pra ela, observando-a pacientemente, como que esperando uma resposta a uma pergunta. Ele havia parado na frente do que parecia ser um escritório e a examinava com uma expressão de curiosidade.

“Ch-chegamos?” Gaguejou, acordando de seus devaneios. Estava tão absorta em seus pensamentos que se alguém lhe perguntasse em qual andar estavam, ela não saberia responder.

“Sim, chegamos. E você pode colocá-las perto do divã. Obrigado.”

“Tudo bem, sem problema.” Soltou uma risada nervosa.

Ela depositou as caixas perto de um móvel elegante, mas desbotado e gasto no centro. Agnes percebeu, então, que metade das estantes que decoravam as paredes daquele cômodo estavam vazias. Os livros estavam no chão, cuidadosamente dispostos sobre um tecido azulado parecido com veludo.  Sentiu então uma vontade asfixiante de perguntar sobre a vida naquele lugar e sobre a vida do velho, que parecia se confundir com a história do prédio.

“O senhor  já trabalhava neste prédio quando os diplomatas moravam aqui?”

Ele a encarou com uma expressão que era metade pesar, metade euforia. Pelo menos, foi assim que Agnes interpretou.

“Durante vinte e três anos eu fui um mordomo neste lugar, desta família. Servi em festas e jantares, presenciei conversas sobre guerras em países tão distantes que soavam tão exóticos quanto inexistentes. Vi as crianças correndo pelos corredores e se escondendo pelo jardim, e, às vezes, ainda ouço o menino chorando quando tropeçou subindo a escadaria e quebrou o braço direito.”

O velho Anselmo sorriu.

Agnes respirou fundo.

"Tento imaginar como essa época deve ter sido."

"Grandiosa" respondeu o velho.

Algum tempo se passou sem que Agnes soubesse como continuar. Tudo o que lhe vinha à cabeça soava estúpido e artificial comparado ao que o velho acabara de expressar. O momento exigia reverência.

O velho também não falava. Parecia estar tomado como que por bruxaria, imerso em memórias fugidias de um tempo que se insinuava presente, mas que no fundo era apenas passado, remoto e irreversível. Anselmo andou até uma estante ainda ocupada e retirou um porta-retrato de uma das prateleiras.

A foto, em tons de um sépia desbotado, contrastava com a moldura que a sustentava, feita de um metal polido que reluzia esnobe em formato de flor. A cena era de duas crianças correndo ao redor de uma fonte, no que parecia ser o pátio da casa. No canto direito, era possível ver um homem com os braços cruzados atrás do corpo recostado em um dos pilares à sombra da casa.  Na outra extremidade, havia um pedaço de tecido flutuando. Parecia a barra de uma saia sendo soprada enquanto alguém caminhava na direção oposta ao vento.

Assim estavam os dois, envoltos num silêncio contemplativo, quando pessoas passaram no corredor falando e rindo alto. Pela animação, a jornada de trabalho tinha chegado ao fim, e Agnes conseguia distinguir o fechamento de mais um dia, e se apressou em voltar à recepção. Ao sair em direção à escadaria, olhou pra trás e viu que Anselmo colocara o porta-retrato junto com os livros a serem transportados. O velho, então, a encarou por um minuto.

“Obrigado por me ajudar com as caixas, Agnes.”

"Obrigada também." Respondeu balançando a cabeça e saindo apressada.

Naquela noite,  depois de lavar com água fria todo calor e poeira que envolviam a tudo e a todos no centro daquela cidade, Agnes deitou-se no sofá e pôs-se a imaginar um tempo que não lhe pertencia. Horas depois, presa em sono profundo, sonhou consigo andando contra o vento, passando por portas que se balançavam convidativas e hipnotizantes como um pêndulo de Newton.

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O prédio em que Agnes trabalhava era um enorme legado arquitetônico de múltiplas janelas que teimava em existir no centro obsoleto e abafado de uma capital igualmente obsoleta, mas voluntariamente ignorante deste fato, e, portanto, estranha de si mesma. Antigo, ruidoso e desbotado, o prédio debochava de todo esforço físico e criativo investido em sua revitalização: a pintura, que ainda cheirava fresca e os reparos em sua tubulação não conseguiram reverter, ou sequer disfarçar, os longos anos de negligência e abandono.  O Departamento de Trânsito e Infraestrutura Urbana não teve outra opção senão adequar-se a tais condições.

A princípio, os novos ocupantes ficaram impressionados com o tamanho generoso da propriedade e com as inúmeras possibilidades de distração que o pátio proporcionaria nas horas de folga, especialmente aos fumantes. O charme colonial da fachada externa do edifício aliado aos simpáticos coqueiros que se balançavam pueris em seu arredor galgaram até o mais implicante dos ânimos, e a mudança logo foi aprovada por todos.

Ninguém, entretanto, havia previsto o quão difícil seria superar a resistência que o prédio oferecia a toda e qualquer tentativa de tornar seu interior receptivo e habitável. A internet fora instalada depois de vários e graves contratempos, mas era lenta e imprevisível, como se estivesse operando de má vontade, fora do lugar. Grande parte da tecnologia carregada porta adentro estava agora acumulando poeira em algum canto esquecido. O prédio repelia, com sua atmosfera inexorável, tudo que nascera depois da virada do século.

Agnes entendia e sentia que o prédio também não estava lá muito confortável com toda a movimentação de pessoas em seus corredores de pé-direito altíssimo. De seu balcão estrategicamente posicionado entre as duas magníficas escadarias que levavam ao segundo piso e embelezavam o salão de entrada, Agnes imaginava conseguir distinguir nos rangidos da madeira velha do assoalho uma sinfonia de protesto. Enganava-se, porém. Bem se sabe que prédios são filhos insensíveis de pais indiferentes; passivos amontoados de pedras e tijolos que, assim como papagaios, apenas repetem o que lhes é ensinado. O prédio de Agnes continuava repetindo-se ruidoso e desbotado. Ranzinza, nostálgico.

Agnes trabalhava na tarde cinzenta daquela terça-feira como trabalhara em tantas outras: jogando olhares sorrateiros pro relógio, acompanhando a lentidão de seus ponteiros. Imaginava que o tempo naquele lugar funcionava de acordo com uma lógica própria, e, distraída, tentava desvendar essa lógica quando o velho se materializou em sua frente.

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O mundo estava calmo e cheio de si na tarde que acabara de começar; o céu, despido pelo sol escaldante da África, pendia  abstrato sobre uma paisagem quase-estática e empoeirada, esculpida em tons de sépia. Os movimentos eram poucos, os animais vagavam com seus corpos lânguidos, e, relutantes, absorviam a aridez que vertia flutuante. A respiração era arrastada, cansada, sonolenta.

No centro de tudo havia uma árvore, o grande Baobá, ou Adansônia.  A árvore, que preenchia com sua presença pesada o horizonte, tinha raízes tão grossas e profundas quanto a própria terra, da qual tirava a opulência de sua majestade e na qual permanecia despreocupada e roliça. A rotina ardente da savana florescia em seu arredor, e, sob a proteção de sua sombra, um felino bocejava. Apenas os insetos, inconscientes que são de toda a existência, trilhavam ocupados seus caminhos entre rachaduras e galhos que nunca acabariam de explorar.

O Baobá era infinito, não sabia os porquês de o ser pois ninguém havia lhe dito, apenas era, existia e compreendia uma lógica de tempo bastante simples: um dia era semente, um dia era árvore, um dia era nada. Um dia um felino bocejara preguiçoso em sua sombra, um dia a tarde cedeu lugar à noite, lentamente, um dia escuras nuvens de tempestade se aproximaram vaidosas e barulhentas, mas a árvore já não lembrava se era o mesmo dia, ou o mesmo século.

Eli #2

Número 59, Rua das Camélias. Ali morava Bianca de nove anos que gostava de puxa-puxa e bala de banana. Gostava também de ter nove anos e queria ficar neles para sempre, mas o aniversário se aproximava sorrateiro e ela ficava cada vez mais angustiada.

Bianca morava com os avós maternos desde que nascera, e a mãe ia visitá-la nos finais de semana. A casa era simples, o chão de madeira e as estantes lotadas de santinhos e bordados. Nos dias de inverno, os sofás mais ou menos confortáveis ficavam imersos em pesados cobertores cheirando a naftalina. Cada coisa tinha seu lugar e as que não tinham ficavam em gavetas.

"Vó, dá pra gente ficar com a mesma idade pra sempre?"

"Todo mundo envelhece.  A gente nasce, cresce e envelhece, sedeusquiser. Junta aquele gancho ali pra vó."

Não entendeu e foi brincar. Os dez vieram, passaram e foram esquecidos no devido tempo. Vinte anos depois, a menina dentro da mulher fazia esforço pra lembrar o que exatamente era a magia dos nove, mas em vão.

 

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Foi  num sábado frio e chuvoso de um novembro igualmente frio e chuvoso que eu e Marisa embarcamos no trem das sete em direção a Weymouth, costa sul da Inglaterra. Nem consultamos a previsão do tempo antes de comprarmos os tickets. Isso porque estávamos empolgadas pra conhecer a famosa Jurassic Coast.

Assim que descemos na estação de Weymouth percebemos o engano: o vento era tão profissional que nossos guarda-chuvas estavam quebrados em questão de  minutos. A chuva, apesar de fraca e inconstante, foi bem sucedida o suficiente pra nos encharcar dos pés a cabeça.  Era quase hora do almoço quando chegamos, então decidimos dar uma volta na praia antes de ficarmos presas na calefação de um restaurante. A praia era pequena e de areia, o que foi um surpresa, pois a maioria das praias no sul da Inglaterra são de seixos.

Depois de uma hora explorando o lugar, decidimos visitar uma enseada que ficava perto, chamada Lulworth Cove. De volta ao trem, descemos em uma estação chamada Wool e pegamos um táxi até a enseada.

A chuva havia piorado e o vento tinha evoluído de profissional para expert. O motorista do táxi nos avisou que as trilhas estavam em péssimas condições e que, portanto, não deveríamos nem chegar perto. Falamos que ok, nossa intenção era apenas contornar a praia e não subir morros.

Já na orla marítima, fomos surpreendidas por uma grande quantidade de pessoas usando um tipo de uniforme camuflado, carregando caixas e falando em walkie-talkies. A praia estava bloqueada, alguém até mencionou que esperavam "uma entrega". Desanimamos.

Foi então que vimos o começo da trilha. Não parecia tão ameaçadora, um pouco enlameada talvez, mas bastante convidativa, pois desembocava na outra ponta da enseada. Quando começamos a subir chegamos a conclusão de que o taxista estava correto, a tilha estava escorregadia demais e a cada metro víamos montinhos de dog poop.

Fazer trilha no meio de chuva, vento e lama,  carregando duas câmeras analógicas enquanto você tenta protegê-las com um guarda-chuva quebrado não é algo que eu recomende.

Ouvimos um helicóptero sobrevoando o local. Achamos estranho e seguimos em frente. O estoque de pensamentos positivos estava se esgotando, mas quando finalmente atingimos o topo do morro, suspiramos felizes e começamos a descer.

Havia uma grande extensão de terra bloqueada por cerca de arame e por avisos que diziam se tratar de uma área militar. Ao avistarmos a praia, notamos que a aglomeração de pessoas uniformizadas ainda estava lá e que, além do helicóptero, havia barcos e lanchas indo em direção à praia. Embora o relógio marcasse 3 pm, o inverno inglês transformava tudo em penumbra.

Pois bem, retornamos ao centro de Lulworth Cove. Cansadas, congeladas e famintas entramos no pub e pedimos alguma comida. O lugar estava lotado, o que só aumentou a improbabilidade da situação: outras pessoas – mais sabidas das intempéries meteorológicas do que nós –  têm atividades mais interessantes pra fazer do que visitar aquele meio do nada no inverno, não? À medida que fomos secando e relaxando, começamos a especular sobre a presença do exército. Chegamos a conclusão de que se tratava de um treinamento.

Na volta para a estação, perguntamos ao motorista do táxi o que o exército estava fazendo lá. A resposta foi:

“Não é o exército, é o Brad Pitt que está aí! Ele está gravando um filme sobre guerra ali na praia”

Oh.

Eu já tinha visto o trailer do Guerra Mundial Z, inclusive achei que o filme já estivesse pronto.  Perguntei se ele tinha certeza e ele disse que sim, por isso tantos seguranças e aquele helicóptero.

De volta em Londres, no domingo, resolvi pesquisar. Era tudo verdade. Então nós estávamos no mesmo lugar, ao mesmo tempo, e só não esbarramos no bonitinho porque confundimos a equipe de filmagem com o exército. Até então o mundo era um lugar onde coincidências desse tipo  aconteciam com outras pessoas.

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Certo dia, no metrô, reparei que meu vizinho de banco carregava um tablet.  O brilho colorido da tela instantaneamente me ganhou e eu passei a observar o que ele estava fazendo. A princípio, fiquei impressionada com a quantidade de jogos disponíveis: jogos de carta, de memória, de dominó, de palavras, de encaixar pecinhas, de explodir pecinhas, enfim, uma infinidade de opções. Notei, entretanto, que o dono do dispositivo nunca completava um jogo; escolhia um por dois ou três minutos e depois simplesmente o deixava de lado pra começar outro. Aquela dinâmica me deixou confusa e - passados dez minutos - precisei fechar os olhos para ignorá-la.

Fiquei imaginando se o ato da leitura em um desses aparelhos segue a mesma lógica. Você está lendo um capítulo e, de repente, se sente tentado a mudar de autor ou de livro, ou a dar uma espiadela na notícia que acabou de ser publicada. Me pergunto, então, se por ser tudo tão fácil e rápido, aquele comprometimento que vem de um contato físico, de uma escolha previamente pensada e planejada não acaba desaparecendo. A lógica seria pensar que a multiplicidade de opções leva a um sentimento de satisfação e até e estabilidade, na prática, porém, a dinâmica não funciona desse jeito. Esse contínuo fluxo de ofertas acaba cortando a corda mágica do interesse, afinal de contas de nada vale carregar quinhentos livros se você não consegue se concentrar em nenhum.

Acredito que isso faça parte de um fenômeno de escala global que caminha e amadurece paralelamente à geração século 21. Penso nele como um fracionamento da nossa existência diária, um despedaçar das nossas palavras e atitudes, uma série de desdobramentos e curvas pelas quais passamos e nas quais é tão fácil se perder. Esse fracionamento é o modo como nós muitas vezes dividimos nossos atos em pedacinhos desfocados, em possibilidades mudas, em palavras sem significado. É também a facilidade com que deixamos algo por terminar e a relutância com que nos entregamos às nossas escolhas, ao sim ou ao não definitivo, preferindo flutuar no mar do talvez. É, acima de tudo, a dificuldade de achar um foco.

Acredito que o compartilhamento descontrolado em redes sociais de todo e qualquer evento, imagem e pensamento também esteja ligado a esse fenômeno.  Somos a platéia de um palco que exibe atrações tão transitórias que não se deixam ser absorvidas, quiçá admiradas ou refutadas, e sobre nós rege um impulso, uma vontade (que se acredita) despretensiosa de fazer parte ou de ser alguém diante da enxurrada de informações que nos é apresentada, mesmo que através dela naveguemos cegamente.

Fica difícil entender quando esse fracionamento teve início. Na verdade, fica difícil e talvez seja irrelevante. É possível que esse padrão de comportamento seja uma reação natural à realidade que nos cerca e com a qual nós – mesmo que de forma relutante ­ – nos cercamos, alimentando seu ritmo super acelerado na tentativa de evitar atropelamentos. O fato é que, se torna cada vez mais difícil absorver o que nos é servido de uma forma que leve a questionamentos mais profundos. Em outras palavras, encontrar um caminho sólido no meio de tantas sombras fugidias requer  reflexão, esforço e perseverança.