Textos

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A tarde se arrastava gelada nas montanhas Hindu Kush, sul da província de Baghlan. Um vento gelado perturbava a crosta de poeira avermelhada que cobria o solo semiárido da região, formando padrões espiralados para em seguida dispersá-los.

Na saída da vila Nayi-e-Khomri, mais de cem homens reuniam-se para assistir a luta de cães, esporte não-oficial que havia sido reprimido pelo Taliban, mas que aos poucos voltara a ser praticado em todo território afegão, especialmente nos meses de inverno.

Os cães eram, em sua maioria, enormes e pesados kuchis ou cães pastores, e alguns valiam tanto quanto um carro. Os animais nunca lutavam até a morte e o confronto, embora violento e sem dúvida excitante para quem o assistia, durava até que um dos adversários fosse subjugado.

Aquele era um lugar de paradoxos.

Aylen patrulhava as ruas com mais seis combatentes, todas do TOSC. Duas delas estariam em casa em menos de um mês e Teena, a mais jovem, declarava que quando pisasse em solo americano gastaria sua bonificação inteira em um spa.

Apesar do frio e do pesado armamento que cada uma carregava, o tom animado da conversa fazia com que elas caminhassem distraídas por entre as esparsas habitações. Aylen, entretanto, sentia uma crescente nuvem de angústia tomar conta de seus pensamentos.

É só o vazio deste lugar, só o vazio. Tudo está certo. Repetiu o mantra algumas vezes, controlando a respiração e acompanhando, agora silenciosa, a conversa do grupo.

Logo encontraram quatro crianças afegãs que brincavam com um cachorro manco, cuja pele amarronzada parecia ter sido esticada ao máximo na tentativa de cobrir seu corpo quadrúpede.

As combatentes se aproximaram e puxaram conversa, oferecendo-lhes um punhado de doces coloridos. Doces coloridos eram recursos essenciais para qualquer membro do TOSC. A estratégia nunca funcionara, mas elas continuavam enchendo os bolsos ao deixar a base.

O cão, por sua vez, aproveitou a distração coletiva para mancar até o muro mais próximo e se deitar. Aylen, que acompanhava seus movimentos, notou que ele não tinha a orelha esquerda e que da direita sobrara apenas um toco de contorno irregular.

Perguntou, para ninguém em particular, se o cachorro tinha nome.

O garoto mais alto do grupo respondeu, ágil em seu dialeto, que era só um velho cachorro de briga.

Velho e aposentado, Alyen completou.

Lembrou-se então do romance O velho e o mar, de Ernest Hemingway, e decidiu nomear o animal como Santiago. O embate entre a resiliência desesperada do velho e a força indiferente da natureza, cuidadosamente descrito pelo autor, parecia corresponder à existência daquele animal.

Aylen se ajoelhou ao lado de Santiago, que levantou a cabeça em reconhecimento à proximidade, e deixou que ele cheirasse sua mão. Só então acariciou a pele retesada do pescoço, perguntando em voz baixa:

“Santiago, você gostaria de comer um enorme peixe suculento e recém-pescado no oceano?”

Santiago pareceu relaxar, fechando os olhos e esticando o corpo.

O ataque veio, feroz, neste momento.

Um enorme cão pastor atacara Santiago. De qual direção o monstro surgiu, Aylen não saberia dizer.

Após o choque inicial, instintivamente ela tentou tirá-lo de cima de Santiago, que gania e buscava, sem sucesso, revidar o ataque.  Agarrá-lo, no entanto, provou-se impossível, pois o cão não usava coleira e se movia com uma brutalidade extrema.

Tentando controlar os movimentos bruscos da besta, Aylen se desequilibrou e caiu. Só então se deu conta das vozes das outras combatentes. Elas tentavam lhe dizer alguma coisa, mas ela não tinha tempo. Tudo o que conseguia pensar era que a cada segundo Santiago ficava mais ferido.

Sentiu então alguém segurá-la e afastá-la da briga. Reconheceu Fanny, a líder do grupo, que pareceu gritar algum tipo de ordem.  Teena, então, atirou cinco vezes.

“Não mate, Santiago! Não mate ele!”

Era tarde.  Ambos os cachorros jaziam ensanguentados no mesmo chão indiferente.

Conseguiu se desvencilhar e ajoelhar-se novamente ao lado de Santiago, que arfava. Havia sangue por toda parte. Aylen começou a chorar enquanto examinava os ferimentos do animal prostrado a sua frente. Conjurou todas as forças para conter a emoção, mas as lágrimas rompiam tal qual rio represado que retoma seu curso natural.

Santiago não fora atingido pelos tiros de Teena, mas sua lombar e pelve estavam definitivamente quebradas. Além disso, havia uma imensa brecha em sua traqueia e severos cortes pelo corpo todo.  Removê-lo seria o mesmo que matá-lo.

Ouviu então vozes alteradas e foi forçada a tomar consciência do que acontecia ao seu redor. Fanny discutia com tajiques armados  enquanto o resto do Time se posicionava defensivamente e pedia reforço pelos walkies.

Fanny tentava dizer que o kuchi havia atacado uma combatente, sendo abatido por esse motivo. O homem não parecia interessado no argumento, revidando agressivamente e demandando uma compensação imediata pelo prejuízo. Se a situação atingisse um ponto sem volta, a chance de saírem vivas dali era mínima, pois para cada uma delas havia, no mínimo, dez homens, a maioria armada.

Sentia o medo das companheiras e a fúria de Teena e Johanne. Esses sentimentos não são meus, pensou, mas não conseguia evitar ser bombardeada por eles.  A confusão emocional mesclava-se à tensão que pairava no ar e ao gosto amargo que experimentava ao engolir a saliva.

A discussão continuava. Agora Fanny tentava dizer que o dono do cão pastor seria ressarcido pelo exército americano.

O ritmo dos batimentos cardíacos de Santiago estava diminuindo. Aylen não conseguiu lembrar-se de nenhuma prece específica para momentos conturbados e desesperadores, então disse apenas:

“Santiago, aonde quer que você vá, esteja em paz.”

Limpou as lágrimas com o lenço que cobria seus cabelos, levantou e posicionou-se ao lado de Teena.

“Se eu morrer aqui por causa de um vira-latas sarnento, Aylen, eu juro, juro que volto pra te assombrar. Espero que você saiba disso.”

Ela não respondeu, apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça.

Em menos de cinco minutos, a infantaria chegou em jipes e comboios camuflados, dispersando a multidão de tajiques. A negociação ainda continuou por algum tempo. Aylen não conseguiu acompanhar todas as ameaças que foram trocadas, pois começou lentamente a sentir as mordidas e arranhões.

A intensidade da dor que emanava de seus braços foi aumentando até que ela perdeu a consciência. Quando acordou, já estava na enfermaria, com os ferimentos limpos e cobertos por gazes.

No dia seguinte, Fanny avisou que descrevera minuciosamente sua imprudência e insubordinação no relatório que entregara aos superiores. Uma investigação estava sendo conduzida com as testemunhas. Aylen teria uma chance de se defender em uma audiência, assim que fosse liberada.

Ok.

“Aylen, o que aconteceu contigo ontem, mulher? Nunca te vi agir daquele jeito. O jeito que tu se debatia por causa daquele cachorro, parecia que tava possuída...”

“Eu não lembro direito...”

“Acho melhor inventar uma desculpa esfarrapada melhor do que essa, se não vão comer teu fígado naquela audiência.”

Como não obteve resposta, Fanny continuou falando:

“... tu colocou a vida de todo mundo em risco. A Johanne tá querendo te dar um pescoção. Eu tentei convencer ela a te deixar em paz e esperar a audiência, mas não sei se funcionou.”

“Sempre houve risco.”

“Não daquele jeito, porra.”

“Não daquele jeito.” Aylen repetiu. “Mas foi tudo tão rápido...”

“A Teena também fez um relatório.”

“É? E o que ela escreveu nele?”

“Que te viu falando com o vira-latas e que tu queria trazer ele de volta pra base. Virou piada, é claro. Mas eu tô te dizendo, Aylen, é melhor negar isso tudo. ”

“E se eu não negar, o que vão fazer? Me mandar pro Iraque?”

Ambas deram risadas.

Ao deixar o quarto, Fanny ouviu a voz de Aylen.

“O nome dele era Santiago.”

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A colcha era preta, pesada e cheirava a roupa guardada, um cheiro de infância, de sol, de verão. Aquele momento, porém, não era verão nem infância. Em menos de vinte e quatro horas, ela estaria trocando o quarto claustrofóbico e protetor por um mundo arisco e raquítico, dissecado pelo desespero, sedento de vida.

Trêmula. Suas credenciais eram erráticas. Sua pontaria era sempre muito boa ou muito ruim e, por isso, estava acostumada a ser alocada em operações de suporte e vigilância.

Uma série de pequenos fracassos e tropeços a fizeram desembocar na carreira militar. Agora, insegurança e um quê de desinteresse na própria vida a conduziam complacente ao distante Oriente, o terrível Oriente, o explosivo e traiçoeiro Oriente.

No Afeganistão, ela seria mais um membro do experimental Time de Ocupação e Suporte Cultural.

Ainda era madrugada em solo americano e Aylen, agarrada à velha colcha na qual inúmeros retalhos desbotados interligavam-se por uma costura gasta e irregular, tentava controlar seus pensamentos, focando-os na esquisita estampa da coberta.

Todos os retalhos tinham único tema: árvores tropicais.  Palmeiras que, balançando-se desinteressadas e verdes, destoavam do tecido grosseiro e faziam Aylen recordar um momento qualquer de sua existência, uma lembrança feliz e perdida no tempo. O cenário era tenro e ela tomava drinques em uma ilha do Atlântico, o mais simpático dos oceanos.

Sentia-se tão segura ali que, ao fechar os olhos, podia visualizar as palmeiras crescendo nas ruas de Seattle, no deserto, no asfalto, naquela ilha paradisíaca onde tambores ressoavam a melodia que brotava da terra.

Até que o ritmo agradável da percussão transformou-se no apito agudo de seu despertador.

No aeroporto, nem lágrima, nem abraço,  nem sequer uma benção amiga e protetora. Apenas "Aylen, nove meses passam voando. Cuide-se!", e a palavra Yale bordada nas costas do moletom de seu irmão.

Enjoou durante o voo de Seattle à Nova Iorque, e de Nova Iorque a Tel Aviv. Já o voo até Cabul passou despercebido. Na base militar francesa de Nejrab, teve que assistir a uma palestra introdutória sem bocejar, sem dormir, sem piscar, sem absorver coisa alguma.

Comparado com aquilo, comunicar-se com mulheres afegãs sem falar a mesma língua seria como abrir um presente de natal.

Em seu primeiro mês, sentia que o calor estava em toda parte. Até a base, com seus modernos sistema de ventilação e umidificadores, não conseguia dissolver a sensação. A luz homogênea dava a impressão de que o sol estava sempre no zênite, deixando-a sob um constante estado de torpor.

Mantinha apenas conversas superficiais com as duas combatentes com quem realizava as patrulhas, Sandra e Sherryl, ambas de Illinois. As poucas tentativas de uma aproximação mais profunda haviam fracassado logo nos primeiros dias.

Não estava ali para estabelecer laços de amizade com seus conterrâneos, e sim para tentar entender a população local e documentar as demandas das mulheres e das crianças, figuras enigmáticas de uma cultura inacessível.

A chave, disse a terceira comandante Jacqueline, é se comunicar. Não importa se você precisa apontar um rifle para cabeça de alguma burca, afirmou ela, desde que a desgraçada entenda sua mensagem. Na ocasião, todos soltaram uma risada desconfortável.

Os Times não tinham um propósito claro. Todas as combatentes foram instruídas a desempenhar tarefas como patrulhar ruas, estabelecer contatos, monitorar os cidadãos e ensinar o modus operandi americano às crianças. Ninguém sabia dizer, entretanto, o que seria feito com o material coletado, quais eram os resultados almejados e como isso ajudaria a melhorar a vida dos locais.

O que se sabia era que um projeto milionário de empoderamento das mulheres havia incentivado exércitos a enviarem tropas femininas ao campo.  A frente de batalha havia, até então, sido exclusivamente ocupada por homens, com uma óbvia desvantagem: os soldados não podiam conversar com as mulheres afegãs.

Aylen tentava não pensar nos desdobramentos políticos de sua decisão. Como todos os outros movimentos em sua vida, ela apenas agarrava o queijo enquanto deixava a ratoeira seguir seu curso.

Numa manhã de Abril, apoiada num muro decrépito da cidade velha, mastigava uma barra de snickers quando ouviu uma explosão e tiros a sua direita. Imediatamente, doses familiares de adrenalina se espalharam por sua corrente sanguínea e ela empunhou a Beretta M9, liberando a trava de segurança com agilidade. Soldados de uma UE forçavam a entrada naquela vizinhança de civis a procura de insurgentes.

Atiradores posicionavam-se em pontos estratégicos, enquanto a unidade principal questionava os moradores. Algumas galinhas e cachorros magricelas corriam assustados. Ao se aproximar do local, Aylen reconheceu o oficial que parecia estar no comando da ação, apesar de não  recordar seu nome.

Nesse momento, Sherryl aparece ao seu lado com a respiração ofegante, perguntando o que havia acontecido. Aylen explica a situação enquanto um dos soldados grita com um grupo de mulheres para que se ajoelhassem. Algumas delas pareciam gritar xingamentos, enquanto outras rezavam. Ninguém se ajoelhava.

A confusão de vozes se misturava ao latido dos cães. Aylen havia aprendido algumas frases em dari, porém estava longe de ser fluente. Sherryl tinha mais facilidade com o idioma, mas parecia estar entorpecida.

De repente, Aylen vê o garoto envolto em uma túnica xadrez, encolhido ao lado de uma casa. Sabia que a maioria dos meninos daquela vila frequentava a escola e falava sua língua melhor do que ela um dia falaria a deles. Seguindo essa linha de raciocínio, ela se aproxima e pergunta seu nome.

Raja.

Raja, preciso da sua ajuda. Você me entende?

Ele diz que sim. Ela então o conduz até o grupo de mulheres, todas cobertas por burcas pretas. O soldado tem o rifle apontado para a  cabeça de uma delas.

O garoto pode traduzir. Diz ao soldado.

Ele a encara por um minuto. Quando fala, as palavras vertem dobradas por um sotaque inconfundível:

Então traduz, garoto. Traduz que se esses urubus não se ajoelharem e fecharem a porra da matraca, vão acabar que nem aquele lá. Apontou delicadamente o rifle pra um corpo inerte há três casas de distância e disparou.

As mulheres começaram a jogar os braços para cima, despejando uma enxurrada de palavras rápidas e afiadas. Aylen beliscou o braço do garoto e ordenou que ele dissesse que ficassem quietas.

Surpreendentemente, a voz do garoto soou como um comando e foi prontamente obedecida.

Diga que isso vai acabar logo.

Antes mesmo que Raja pudesse passar a ordem adiante, algumas mulheres do grupo a encararam. Um arrepio percorreu sua nuca e Aylen sentiu aquelas mulheres. Sentiu sua repulsa, seu medo, sua confusão. Havia ali um ódio  que escalava.

Sem saber como, tomou consciência  de que dentro de uma das casas mais próximas havia algo precioso. Algo que o grupo tentava proteger.

Falou então para se acalmarem. Falou que nada aconteceria. Confiem, pensou. Por favor, confiem e fiquem quietas.

Devagar, guardou a Beretta no colete e caminhou até um das portas de madeira, empurrando-a. Dentro do minúsculo recinto, havia uma adolescente de longos cabelos  pretos segurando um pano ensanguentado.

Ao vê-la, a garota grita e vai em direção à porta. Se os soldados a vissem daquele jeito, sua vida estaria acabada.

Aylen consegue agarrá-la a tempo e tapar sua boca. A garota começa a soluçar.

Alguns minutos se passam. Alyen mentaliza apenas fique quieta, fique quieta, fique quieta... calma, calma, calma. Não sabia se projetava isso pra garota ou pra si mesma.

Em um dari desengonçado, tenta perguntar se há alguma coberta no local, algo que possa servir para tapar seus cabelos. A garota nada diz e continua choramingando.  Segurando firmemente seu braço, Aylen anda pela casa a procura de alguma vestimenta que possa servir.

Em um momento de distração, a garota, que se chama Tulin, consegue se soltar e corre em direção a um minúsculo cômodo que contém o que parece ser uma cama. Ela desenterra um tecido azul e diz alguma coisa que Aylen não compreende.

O pano não era uma burca, mas uma espécie de túnica. Aylen ajuda a garota a se tapar e a conduz para fora da casa, segurando seu braço.

Fique perto de mim. A garota parece entender o comando.

As outras mulheres assistem as duas se aproximarem. Ondas de perplexidade e desaprovação emanam do grupo. Sherryl, que já respira melhor, também a observa desconfiada.

Aylen entrega a garota e se posiciona em frente ao grupo, guardando-o.

Aos poucos, os níveis de adrenalina baixam e ela tenta controlar sua respiração, agora ofegante. Sente-se drenada de todas as forças, mas  sabe que o perigo ainda existe.

Logo ela e Sherryl recebem a ordem de encaminhar o grupo, e todas as outras mulheres e crianças que encontrassem pelo caminho, para o centro de saúde que ficava na entrada do vilarejo.

A operação dura até o anoitecer. Nada é encontrado e a EU deixa o local.

Algumas combatentes chegam ao centro para ajudar na coleta de depoimentos sobre os acontecimentos daquela tarde. Aylen é substituída e recebe permissão para retornar à base.

Ao deixar o lugar, sente vários pares de olhos acompanhando seus movimentos. Alguns pareciam amaldiçoar sua presença, enquanto outros  emitiam preces silenciosas. No estado de esgotamento físico e emocional em que  se encontrava, Aylen achou difícil distinguir a benção da maldição. Resolveu aceitar ambos.

Naquela noite, dormiria profundamente e sonharia com palmeiras se balançando no deserto.

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O monumento estava encoberto por manchas e cores cuja combinação parecia ter sido projetada para desagradar qualquer eventual observador. Do formato original, pouco se podia adivinhar, pois uma quantidade exorbitante de lixo mesclava-se às extremidades da obra e impedia a identificação imediata de seu contorno. Haviam lhe informado, entretanto, que o monumento era um marco remanescente da longa e sofrida pré-história humana, uma era sombria na qual o ato da existência fora constantemente confundido com sofrimento.

Para Loni, a informação não fazia a menor diferença.

Tudo o que precisava conhecer era a particularidade da encomenda. Pelos próximos três meses, seu trabalho consistiria em esfregar cada centímetro daquela imundice até que o monumento fosse restaurado. Loni não tivera escolha, mas nenhum dos detentos verdadeiramente a possuía. Segundo a assistente individual, assim que o serviço estivesse completo seu esforço seria recompensado. Caso não completasse, passariam a encomenda adiante.

Nesse momento, a poesia será feita por todos.

O trabalho teve início em junho. Loni sentia sua pele ferver sob o efeito da radiação amarelada que preenchia aquela parte da cidade, conferindo-lhe uma iluminação mórbida e estourada. Não havia um segurança sequer para garantir que ele executasse o trabalho, mas Loni não sentia vontade de fazer qualquer outra coisa que não o que lhe fora designado. Todo pensamento que contrariasse os métodos ortodoxos estava devidamente desenraizado.

A primeira etapa do serviço consistia em limpar o lixo que contornava o monumento. Apesar de intenso, o exercício provou-se possível e a atividade progrediu conforme o cronograma estabelecido. Loni levara duas semanas para eliminar, manualmente, o entulho e agora passaria à limpeza das pichações.

Descobrira que o formato do monumento era o de um quadrúpede atarracado; ao observá-lo, não experimentou simpatia ou aversão, apenas sentiu seu cérebro imaginar o animal em vida. Era algo realmente desconcertante vê-lo correndo em uma pradaria.

Ao contrário da atividade anterior, limpar a tinta entranhada na pedra requeria uma técnica específica e um quê de perseverança. Além disso, cada tonalidade parecia agarrar-se à pedra com o desespero com que um animal encurralado revida um ataque.  Era quase como se as pichações fizessem parte do monumento, demandando o reconhecimento de sua presença, e não aceitassem desaparecer de jeito nenhum.

De repente, você está no deserto do jeito que está na noite, o que não for deserto, não mais existe.

Por vezes, Loni parava de esfregar e observava aqueles ideogramas quase inteligíveis. Certamente quem imprimiu aqueles símbolos tinha a intenção de comunicar algo a alguém. As possibilidades eram muitas. Nesses momentos de contemplação, sentia crescer dentro de si uma vontade visceral de compreender os rabiscos e os seres humanos que os haviam produzido. Experimentava uma curiosidade infantil, um desejo de agarrar esse algo intangível, uma nuance abstrata, uma linha de pensamento, de ação.

A habilidade de sentir os objetos, de comungar com eles, de ser eles por um momento...

As pichações resistiam teimosas como uma visita que não sabe a hora de partir.  Quando conseguia progredir com a limpeza de um trecho e tomava distância para melhor observar sua evolução, Loni visualizava os traços do que acabara de apagar voltando a tomar forma. Além disso, tinha a impressão de que, durante sua ausência, a tinta regressava sorrateira às partes que já estavam limpas.  Era como se o monumento fosse memória viva, absorta na constante leitura de si mesmo. Não toleraria violações.

Qualquer outro ser humano sentiria uma angústia profunda, uma desesperança cancerígena que, somando-se aos dedos carcomidos, seria suficiente para provocar uma desistência. Tais oscilações, no entanto, não atormentavam Loni. O que acontecia com ele era exatamente o oposto: experimentava uma satisfação profunda ao constatar que, no dia seguinte, os ideogramas ainda estavam lá.

Mono-no-aware

Loni prosseguia limpando, mas algo havia mudado em sua natureza básica: passara a sonhar. Sempre que dormia, sonhava. E, quando sonhava, confundia tudo o que havia feito durante o dia: enxergava-se pichando o monumento ao invés de limpá-lo. Acordava estranhamente excitado com essa inversão de lógica, grunhindo como se estivesse com dor.

Uma barreia a atravessar ou uma estrada a seguir?

Faltavam três dias e meio para o prazo acabar quando Loni terminou de esfregar para inexistência os últimos símbolos. Afastou-se do monumento, como estava acostumado a fazer, e permaneceu uma fração de tempo observando-o. Sentiu, então, a melancolia do que havia feito alongar-se por todo corpo, como um animal finalmente despertando de um prolongado sono.

Loni vacilou, estava zonzo e seu estômago queimava. O monumento jazia a sua frente como que despido de sua individualidade. Nu, dissecado, raquítico.

Quem disse que o tempo cura feridas? Seria melhor dizer que o tempo cura tudo, exceto feridas.

Ouviu passos rápidos se aproximando.

“Fui notificada sobre o término de suas atividades. Você confirma o status da encomenda?”

“Não confirmo nada.”

Compreendo, disse ela.

Assim que a assistente saiu de seu campo de visão, Loni deixou-se envolver pelo impulso de redesenhar com as próprias mãos tudo o que não mais existia, tudo o que recordava das formas e cores que apagara. Talvez pudesse também criar algo que seria confundido com os rabiscos de outrora, algo de seu. A melancolia deu lugar a uma necessidade de expressar tudo o que já havia sido expresso antes, tudo o que estivera ali antes dele chegar.

Aproximou-se do monumento. Começou com pequenos riscos e logo compunha detalhes de forma apressada, porém precisa, seguindo padrões que estavam vívidos em sua mente, as lembranças que o haviam marcado com ferro em brasa. Naquele momento, tornara-se um escravo de uma vontade alheia a sua, mas que, aos poucos, o contaminara.

Desenhando na pedra, Loni tomava consciência das paixões humanas, da enxurrada de tempo, das curvas da memória coletiva e dos monstros abissais que haviam corrido soltos nos primeiros dias do mundo.

Ele abarcara no próprio corpo as infinitas lembranças. Agora, elas lhe pertenciam e Loni despedaçava-se em euforia, submergindo em cada recordação. Seu corpo era o monumento, confundia-se com ele, preenchia-se dele. Naquele momento, o vácuo se transformava em matéria e o silêncio em um som estrepitante que vibrou no horizonte.

Como água evaporando de uma chaleira, mudando de estado, transformando-se em outra versão de si.   

Nota: este texto foi inspirado pelo filme Sans Soleil, de Chris Marker (1983).

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É verão e a hora lenta que sucede o almoço se arrasta feito fiapo de nuvem em céu claro, daqueles que parecem riscados de giz. A restinga cozinhando apática no sol,  as cigarras anunciando barulhentas o calor e a monofônica dinâmica das ondas, que explodem a algumas quadras de distância, pintam um quadro de inércia e desidratação.

Por todo balneário poeirento, pessoas cochilam o almoço enquanto varejeiras esverdeadas sobrevoam suas cozinhas, ocupadas. Bia encara  as próprias pernas projetadas contra a parede branca, em paralela harmonia à rede de balanço de indígenas estampas. Deitada de costas sobre o azulejo que resiste fresco e rígido ao mormaço leniente,  a garota aguarda o sono despregar-se de todos os seres e objetos que compõem o mundo, ao mesmo tempo em que observa a pele bronzeada e exposta pelo biquíni de formato triangular.

Assim de perto, é quase possível ver a flora de penugem dourada refletindo a luz homogênea e estourada daquela hora enfadonha, abastecida pelo primeiro alvoroço dos hormônios.  Com a unha do dedão, vai formando meias-luas aleatórias na coxa direita até conseguir um bocejo. Não. Dormir não. Decide encontrar uma pá de jardim e dar o fora dali.

Na garagem, a caixa de ferramentas repousa imunda debaixo do tanque, atrás de uma portinhola de madeira com dobradiças carcomidas pela maresia. Ao puxar a caixa, vê que ela está coberta de teias de aranha e hesita. Mais bocejos. A ideia de cochilar por alguns minutos não parece tão ruim; as beiradas de crochê da rede balançam-se preguiçosas, convidativas.

Não. Todos falavam que fechariam os olhos apenas para descansar e acabavam dormindo por horas. Até o relógio parecia operar sob aquele efeito entorpecente; seus ponteiros operavam pesados, reféns do soberano vespertino e glutão. Bia sacode o sono rasteiro e com movimentos bruscos enfia a mão na caixa de madeira, rompendo algumas teias e sentindo a poeira acumulada. Por fim, resgata seu troféu. Cavaria um buraco no extenso e desocupado terreno vizinho.

O projeto já vai adiantado quando Bia percebe alguém vindo em sua direção, uma garota ruiva e muito branca cuja fisionomia não reconhece. A garota pergunta o que ela está fazendo, mas não diz seu nome.  Bia, por sua vez,  conta-lhe sobre o plano e convida-a para ficar. A garota ruiva ri e diz que não pode ficar muito tempo no sol, ainda mais naquela hora. Bia não entende direito o que ela quer dizer com isso, mas associa a algo que ouviu de seu avô. O sol castiga antes das três.

A garota na bicicleta antiga decorada com fitas azuis e a chama para ir até sua casa. Bia responde que sim; o buraco, a pá e o sono esquecidos.  Feliz por inaugurar sua Caloi lilás aro 20, sai pela estrada de paralelepípedos empoeirados e segue animada aquela cascata de cabelos crespos, presos por uma trança lateral.

A casa da garota é uma estrutura alta de madeira vertical coberta por um telhado pontiagudo, contrastando com a geografia plana da região. Que engraçado, parece que foi plantada no meio do terreno. Bia percebe que ali paira um quê de estranheza e lembra-se das estórias infantis. Só faltam os doces.

Sob a protetora sombra do telhado, Bia repara que o rosto da garota é coberto por pequenas manchas amarronzadas. A novidade a pega de surpresa e ela prende a respiração, produzindo um suspiro seco que soa como um "ah". Como não viu antes? As centenas de minúsculos pontos pipocam por todo rosto de forma homogênea, variando em tons, formatos e tamanhos.

Como se já estivesse acostumada a lidar com tal reação, a garota declara horizontal: “São sardas”. Bia sente uma vibração estranha escalar as paredes do estômago, mas nada responde. Lembra-se da professora de biologia dizendo que em alguns países os habitantes não viam a luz do sol durante os meses de inverno e que geralmente tinham uma pigmentação diferente por conta da mutação genética. Nesses lugares era frio.

Apesar da estranheza em seu semblante, a garota parecia bastante à vontade naquele clima litorâneo abafado. Ela é magricela e usa uma regata xadrez esverdeada, o que ressalta ainda mais os cabelos bagunçados e as sardas. Seus ombros estão curvados como que por desleixo ou tédio.

A garota segura a trança com o braço direito, cruzando o outro sobre o abdômen para servir de apoio. Achei que você fosse mais legal, mas nada é dito. Bia solta uma risada nervosa e encara o chão: seus pés encardidos e queimados pelo sol contrastam com os da garota, que calçam havaianas azuis e são tão pálidos quanto os de um fantasma.

Uma mão ossuda e firme ergue seu queixo de forma rude, forçando-a a encarar olhos acinzentados. Bia repele o movimento de forma igualmente brusca, mas tem o impulso de respirar o cheiro que exala do pescoço da garota ruiva. Quente. Sem pensar muito a respeito, dá um passo, fecha os olhos e inala.

Os cabelos da garota cheiravam a temperos frescos, colhidos no quintal em dia de chuva.  Quando abre os olhos, percebe que estão a um palmo de distância. Sua respiração começa a ficar descompassada. A garota se inclina e encosta nos seus, lábios tão salgados que mais parecem carne viva, pulsante e recém-cortada.

Há movimento e uma mistura muito forte de sensações. Um tipo de pressão irradia do tronco e perfura todos os membros de seu corpo, forçando-a a experimentar uma necessidade até então desconhecida. Bia não sabe o que fazer com os braços, mas começa a movimentar a boca, tentando sugar o bafo quente e só para quando não consegue mais respirar. Se alguém acorda...

“Meu irmão saiu e minha tia dorme que nem um porco.” – Diz a garota ruiva enquanto a puxa para dentro da casa. As duas sobem rapidamente uma escada de madeira e Bia é levada até o último quarto de um corredor baixo e claustrofóbico. O segundo andar da casa cheira a roupa guardada e a verões já distantes.

As duas trancam a porta do quarto e encostam o ouvido na madeira, atentas, mas a praia toda é sono e digestão.  Deitadas na cama, viradas de frente uma para outra, Bia observa de perto as inúmeras sardas. Suas mãos tocam a pele quente da garota e as duas se beijam novamente enquanto as pernas se entrelaçam inquietas.

Bia lambe um pedaço de pele no pescoço e sente o mesmo gosto salgado. Era como se a garota ruiva houvesse passado dias a deriva, marinando tenra no oceano que estourava ali perto.

Tanto as paredes de madeira escura quanto a pilha de grossos cobertores que pendia do guarda-roupas semiaberto parece reverberar com os movimentos.   Há uma súbita movimentação no andar de baixo e o susto arranca Bia da agitação. Confusa, ela pula da cama, ajustando o biquíni sem olhar para a garota. Precisava respirar, dar o fora dali.  Abre a porta e desce as escadas sem medir o barulho.

Nas ruas, deserto. Mil anos se passaram, mas a sonolência amarelada ainda se agarrava à superfície do mundo, tal qual bolha de sabão que não quer voar. Esbaforida, sobre na bicicleta e perambula sem destino pelas quadras assimétricas daquele pedaço de mundo, ignorando os espasmos que emanam de seu interior. No quarto, imagens de si mesmo totalmente nua, mas ela segue pedalando.

Em casa, se tranca no banheiro. No espelho oval encara um rosto queimado de sol, emoldurado por cabelos lisos e amarelados. Gargalhadas estrepitosas emanam de repente de algum lugar na redondeza e Bia sente o coração palpitar, engolindo a saliva acumulada, salgada.

Ao retirar a parte de baixo do biquíni, observa um risco de secreção esbranquiçada.  Fecha os olhos e tem a impressão de que as sardas estão agora em seu próprio corpo, coladas sobre seu abdômen, movendo-se e formando complexas constelações.

Com os dedos médio e indicador da mão direita, começa a acariciar os poucos centímetros de pele úmida que ainda pulsam. Parece importante que os movimentos sejam suaves e constantes. A sensação aumenta exponencial, explodindo mais completa do que havia sido antes.

Bia deita no chão frio, estimulando o orgasmo que não cessa e cuja intensidade não diminui. Enquanto o mundo dorme, pesado e inerte sob um céu riscado de giz, sardas flutuam há um palmo de distância e Bia geme, desperta.

Londres, Horniman Museum gardens, 2012 - LOMO filme preto e branco ISO 400

O vento soprava rasteiro, curvando as espigas de trigo que encontrava pelo caminho e conferindo às fileiras da gramínea padrões ondulados, um quê de impressionismo. Bloqueando o sol com a mão direita, Lídia vê a estrada de ferro serpenteando até desaparecer no horizonte.

Logo à frente, a chácara brotava vacilante em tons de um verde pegajoso,  sugando a luz daquele começo de tarde enquanto as copas das árvores respondiam às condições climáticas do mundo exterior como se pertencessem a ele.

Para Lídia, o lugar sempre representara o  implacável manto de segredos e incertezas que cobria o mundo ao entardecer. Pisar naquele solo úmido era o mesmo que pisar nas fendas abissais do Pacífico.

Devagar, apoiada em uma árvore, ela tira o sapato e enfia os pés no barro preto, fecundo.   Imediatamente, o cheiro fica mais forte. Sua presença é notada.

Ela ouve o farfalhar manso dos galhos e folhas e se deixa envolver por uma brisa manhosa. As mechas mais teimosas de cabelo branco  conseguem se soltar do coque. Lídia sorri.

A chácara continuava sendo uma das fundações da existência na Terra. Era visível, porém, que o lugar rapidamente se deteriorava. Até o muro de tijolos queimados parecia contrair-se em direção ao centro, como se corroído por um dor pungente, regular.

Lídia sabia que aquela circunferência de irregularidade  logo deixaria de ser. O que viria depois era, por enquanto, vazio de significados.

Aquela sensação de ruína imediata a fez querer cantar. Ela desejou preencher cada canto escuro e mofado com uma melodia que falasse sobre a criação da noite e do dia. Os versos, aprendidos na juventude, fluíram soltos, formando curvas e coro com o vento, agora mais forte.

Girando, girando, girando.

Quanto mais Lídia cantava, mais o ambiente parecia despertar. O chão se movia sob seus pés e ela ouvia sussurros vindos de todas as direções. Palavras ecoavam de um presente remoto ou de um futuro distante, quase esquecido.

Pule. Pule. Pule. Pule. Então pule.

Neste momento, uma sensação de conforto profundo toma conta de seu corpo e ela tomba. Sente  a umidade que transborda do chão, que transborda das árvores como o suor de um corpo humano.

Sussurros ricocheteavam tão velozes que ela conseguia captar apenas o eco das últimas sílabas.

Tia. Tia. Tia. Tia. 

Deitada no tapete de folhas e galhos, Lídia continua respirando decomposição e renascimento.

Quando tenta se levantar, vê um garoto parado próximo à fenda no muro circular. Não consegue enxergar seu rosto, mas tem a impressão de que ele está miseravelmente confuso, como se procurasse algo.

Ela faz um esforço para ficar de pé. O movimento exige sua concentração e quando  percebe, o garoto desapareceu.

O vento já não ululava. Usando as árvores como apoio, ela caminha até o ponto em que o garoto aparecera minutos atrás. Em seu lugar, há uma pequena e trêmula samambaia.

"Quem é você, quem é você?"

"De onde vem e por que está aqui?"

A samambaia responde em linguagem de planta, balançando, aflita, suas frondes.

"Tudo bem, não precisa ficar agitado."

"Não consigo descobrir porque você está aqui, meu bem, mas não deve ser nada bom. É realmente um fato curioso. Este não é, de maneira alguma, um lugar apropriado para alguém como você passar o tempo."

"Vou te levar comigo. Vou te arrancar daqui enquanto este lugar ainda respira. Você parece tão perdido."

A raiz da planta deixa o solo úmido com extrema facilidade, acomodando-se nas mãos da velha.

A tarde já vai adiantada quando Lídia deixa o círculo de tijolos queimados. No mundo lá fora, as cigarras anunciam rítmicas o final de mais um ciclo, a hora mágica e sinistra na qual bruxarias tomam forma e trespassam o limite do incompreensível, aproximando-se curiosas da humanidade, que relaxa.

Um estampido seco reverbera pelo ar, interrompendo a sinfonia. Lídia encara o horizonte, sabendo que atrás de si repousa agora um campo de trigo, infinito em sua secura quebradiça.

A samambaia começa a pesar em seu colo. Ela respira fundo e continua caminhando.

junipo

Gui despencava em velocidade constante. Perdera a noção do tempo, mas concluiu estar preso em algum tipo de sonho maluco quando seu corpo misteriosamente alinhou-se na vertical e seus pés tocaram uma superfície molhada. Contrariando todas as leis de Newton, seu peso e velocidade não chegaram a sequer perturbar a água.

Olhou ao redor, mas não viu muito. Seus sentidos estavam descompassados e ele enxergou apenas uma luz estourada e alguns borrões.  Quando seu cérebro conseguiu se adaptar e distinguir formas mais nítidas, Gui percebeu que estava de pé no meio de um vasto oceano, e também que a única parte submersa de seu corpo era o tornozelo.

No horizonte, havia um gigantesco sol que coloria o oceano com tons de amarelo queimado, conferindo ao lugar um ar de pintura. O céu também deixava-se contagiar por aquela luz e as esparsas nuvens absorviam o sépia modorrento e crepuscular.

Seu efeito no lugar era quase nulo. O lugar, no entanto, exercia uma força esmagadora  sobre seu corpo, que parecia prestes a implodir. Arriscou alguns passos. Teve medo de ser engolido por aquele abismo de água, mas considerou que se ficasse parado congelaria.

“Gui”, disse um eco distante.

Virou-se rapidamente para o que pensou ser a direção do som, mas não havia ninguém.

“Que lugar é este?”, perguntou para o nada.

“Este lugar está logo abaixo do círculo. É uma realidade intermediária chamada JU NI PO, a terra do sol poente, onde tudo apenas permanece.” O visitante pronunciava as sílabas separadamente, com cuidado.

“Junipô? Como naquela canção famosa?”

No oeste bem distante, baby ô 

Gritei em vão pra alguém vir buscar (e me levar)

Pra terra do sol infinito ô 

Lá onde você deve estar

Pra terra de Junipô ô 

Lá onde você deve estar

Depois de um tempo, acrescentou: “Como faço pra sair daqui? Tô me sentindo estranho…”

“Não é tão simples assim, Gui. Sair nunca é tão fácil quanto entrar.”

“Olha, esse tipo de coisa não me ajuda. Preciso saber em qual direção seguir.”

“Todas as direções deste plano desembocam no mesmo lugar.”

Gui sentiu-se levemente irritado com aquelas afirmações vagas. Nunca entendeu porque as pessoas que conhecia não falavam coisas concretas como a grama é verde, o céu é azul, o norte é aqui e o sul ali…

Se bem que o céu em Junipô não era exatamente azul.

“Você precisa achar o Caronte”, terminou a frase junto com a voz do visitante, como se adivinhasse as palavras.

Virou-se de costas para o sol poente e começou a caminhar. O mar não tinha ondas, talvez por não ter um limite, uma costa. Era uma superfície perfeitamente plana que mais parecia uma imensa lona onde tons de amarelo e azul travavam uma guerra infinita.

À medida que caminhava, Gui sentiu que o oceano sob seus pés estava vazio. Tinha certeza de que era profundo além da imaginação, mas não percebia nada se mexer. Nenhum peixe nadava apressado e nenhuma bolha de ar flutuava desajeitada, denunciando alguma forma de vida.

Do que vale um oceano sem peixe?

Seria desagradável ficar ali por muito mais tempo.

Eventualmente avistou uma estrutura metálica colossal que parecia brotar indiferente da água. Parecia a carcaça esquelética semissubmersa de um navio outrora corpulento. Quando chegou bem perto, Gui viu que minúsculas conchas amarronzadas prendiam-se às partes que tocavam a água, porém uma rápida inspeção revelou um completo abandono por parte dos habitantes.

Lembrou-se, então, da única vez que visitara o oceano. Há três anos, em um domingo abafado no início do outono, Beatriz insistira que ele a acompanhasse em uma de suas visitas a uma cliente cuja casa ficava no litoral.

“É uma mansão na encosta de um morro, você vai gostar!”

Horas depois, desciam a trilha que desembocava em uma pequena baía de areia amarronzada. O céu tinha um aspecto triunfante, claro e límpido, quase sem nuvens. Os gritos agudos dos pássaros nativos, o cheiro forte de sal e os rítmicos estrondos das ondas compunham um universo temperamental que parecia prestes explodir.

Caminharam por toda a orla e resolveram fazer um piquenique sobre a formação rochosa que marcava uma das extremidades da praia. Enquanto observava as ondas quebrarem insistentes contra as rochas mais baixas e depois escorrerem rasgadas por entres as pontiagudas conchas, Gui devorava um sanduíche de atum e picles preparado na véspera.

“Mãe, não parece que tem um pulmão respirando por trás do movimento das ondas?”

A lembrança do episódio se desfez e Gui  lembrou-se da chácara e de como tinha ido parar em Junipô.

Olhou a estrutura e decidiu escalar a viga mais próxima, uma barra horizontal que não estava tão enferrujada. Fez os movimentos devagar, tomando cuidado para não se machucar nas extremidades calcificadas das conchas. Quando finalmente conseguiu se equilibrar, voltou a ouvir a voz do visitante, sempre uma oitava mais baixa do que a sua.

“Gui, você precisará transpor esse plano. Só assim estará livre e poderá retornar pela passagem que nos trouxe até aqui.”

“Tá bom. E como faço isso?”

“Você vai ter que decidir.”

“Decidir o que?”

“Este lugar é o ponto antes da bifurcação. Você está parado nele porque é só isso que ele permite: o não movimento, o imutável presente, o segundo antes da tempestade. Assim que você tomar uma decisão…”

Uma forte vibração dissipou as últimas palavras de seu interlocutor.

Um terremoto parecia se aproximar e toda a estrutura metálica reverberava com ele. Gui percebeu a água subitamente ameaçadora e agarrou-se na viga vertical mais próxima. Imaginou-se engolido por aquele mundo submarino e foi dominado por um medo primitivo.

Embora a superfície permanecesse calma, era possível perceber uma grande quantidade de água sendo deslocada nas profundezas. Algo estava se movendo debaixo da lona, vindo em sua direção.

O pânico havia se instalado por completo quando uma forma negra e extensa se materializou sob a fina membrana da superfície. A princípio, Gui achou que fosse uma baleia, mas logo percebeu estar enganado, pois o animal não tinha exatamente o mesmo formato e se movia com extrema rapidez.

Depois de um tempo na mesma posição, Gui conseguiu mover um dos braços e soltar-se da viga. Ao redor da estrutura metálica, o animal continuava a nadar, espreitando-o.

“Ele está esperando sua decisão.” Conseguiu antecipar que o visitante diria algo assim.

“Ele quem?”

“O Caronte. É ele que vai te atravessar.”

Só então percebeu que sua voz também tremia. Havia algo naquele lugar que o fazia  vibrar como as cordas de um instrumento musical.

Pule, disse o visitante.

Gui fechou os olhos, respirou fundo e mergulhou. Seu corpo submergiu por completo e ele ficou como que suspenso, á. Para sua surpresa, a temperatura da água estava agradável e a sensação de conforto que tomou conta dele o fez parar de tremer imediatamente. Depois de alguns segundos, abriu os olhos e enxergou o animal em toda sua extensão.

Automaticamente, seu cérebro vasculhou por palavras que pudessem descrever aquela criatura, mas não as encontrou. Imaginou se tratar de um dos seres pré-históricos, sobrevivente de um tempo ancestral no qual tudo era mar e o que não era ainda não existia. Um ser que foi criado durante a primeira tempestade.

Gui solta o ar que havia prendido antes do mergulho e diz: decidi voltar.

O Caronte se aproxima ameaçador e gigantesco, revelando uma bocarra cheia de dentes desalinhados. Gui o encara passivo e  apenas sente-se desmanchar naquele desconhecido em que havia tropeçado.

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Na hora mágica em que o dia vira noite, em que caçadores caçam e bruxarias tomam forma, no momento em que tudo no mundo se transforma em outra versão de si mesmo, a mão do garoto encontra apoio no tronco escorregadio de uma araucária. O vento penetra o ambiente ricocheteando arisco e assoviando baixo sua presença melancólica, enquanto Gui enfia os cadarços nas laterais do allstar encardido.

Na madrugada anterior, tivera um pesadelo do qual acordara tossindo seca e violentamente, sentindo como se tivesse engolido litros de água salgada ou passado dias em um deserto sem nada para beber. Agora ele apenas fecha os olhos e respira fundo, inalando a umidade.

Desde que descobrira o lugar, Gui o visitava com frequência. Para chegar até lá, contava os marcos que apontavam sua evolução: a pedra negra de formato oval, a árvore dobrada que continuava a crescer, o chiqueiro abandonado, e, finalmente, o trilho. Entre a árvore e o chiqueiro havia ainda dois sinais de relevância mais efêmera, que Gui apenas recentemente começara a distinguir: a toca do lagarto e a mancha no gramado esparso, em formato de ‘s’.

Uma após a outra, naquele canto esquecido de mundo, as tardes se desmanchavam púrpuras ao som de cigarras desiludidas.

Resignado, Gui coloca a mochila no ombro  e, ao dar um passo em direção à única fenda que havia no muro, para estarrecido. Havia alguém lá. Um adulto alto e magricela que mais parecia uma colagem em tamanho real de uma pessoa. Durante um longo minuto, o garoto apenas olha sem conseguir compreender o que vê.

Gui sabia que ninguém do vilarejo entrava na chácara; a maioria nem sabia de sua existência. Ver alguém parado ali, portanto, era algo que o assustava em grandes proporções.

De repente, curioso e impulsivo, ele dispara na direção da improvável visão. Na medida em que se aproxima, entretanto, é invadido por uma sensação grotesca de repulsa; alguma barreira invisível o repelia com o mesmo empenho que ele empregava para avançar.

A criatura mostrava-se igualmente afetada, pois, a cada passo de Gui, parecia ser forçada na direção contrária. Observava a situação, no entanto, com um ar de condescendência e até esboçava um princípio de sorriso.

Ao observar mais de perto seu rosto, Gui fica ainda mais assustado e confuso. A semelhança entre eles era perturbadora.

“Quem é você e porque você está aqui?”

“Eu estou aqui porque você está aqui, Gui.”

“Você…” Consegue balbuciar enquanto lembra-se das lições que ouvira na escola sobre pessoas desconhecidas, às quais nunca dera muita importância.

“Como eu disse, estou aqui por você. Eu sei que você tem visitado este lugar com certa frequência, mas entenda que ele está sumindo. Gradativamente ele vai sumindo e não seria nada, digamos, a-gra-dá-vel se isso acontecesse com você aqui dentro. Na verdade, é difícil prever as consequências, mas seria algo fora do natural.”

As palavras do visitante soavam enigmáticas, mas Gui reconhecia uma verdade nelas, pois sentiu, desde o primeiro momento, que a Chácara era diferente.

“Por que a gente se parece tanto?”

“Somos bastante parecidos agora, mas seremos ainda mais se você não sair daqui. Talvez você compreenda mais tarde. Agora apenas vá embora, Gui. Saia da circunferência e não pise mais aqui!”

“Me sinto bem aqui..."

“Este lugar não é mau ou bom, ele apenas é. Em essência ele é errático, então se você for transportado para algum outro lado da existência, não espere compaixão…”

"Como assim transportado?"

"Este círculo que você chama de chácara é uma irregularidade que existe entre dimensões desde os tempos imemoriais, Gui." A criatura deu um passo inseguro e tocou o tronco seco de uma faia amarelada.

Gui tentava absorver aquelas informações andando em círculos, desenhando padrões na terra úmida.

"Por hora, você só precisa  concentrar sua vontade em se afastar dele. Você me entende?"

"Dá pra viajar entre dimensões por aqui?" Era uma pergunta quase silenciosa, apenas para adiar algo que espreita e se aproxima.

"Não mais. Como eu disse, o lugar é instável  demais."

Gui assentiu. Aos poucos, o garoto absorvia a ideia de que aquele lugar viraria apenas uma lembrança estranha, como o pesadelo que tivera na noite anterior. Perguntou-se se teria coragem de voltar ali, mesmo depois de ter sido avisado.

"E você, pra onde vai?"

"Eu vou voltar para o lugar de onde vim e você vai esquecer que um dia me viu e que tivemos esta conversa…"

Gui deu de ombros enquanto a criatura ainda falava e inalou o ar salgado do lugar para solta-lo depois, lentamente. Enquanto caminhava em direção a saída, a atmosfera do lugar tornou-se  mais carregada, como se as próprias árvores respirassem fundo, reproduzindo o gesto do garoto. Até o vento foi impedido de continuar soprando por entre faias e sumaúmas.

Gui olhou para cima e percebeu que os galhos mais altos das árvores estavam encolhidos como as pernas de um inseto morto. Suas folhas caíam sem nunca tocar o chão. Virou-se e notou que a criatura empregava um esforço tremendo para se mover em sua direção, o que provocou nele uma onda de repulsa.

“Você precisa pisar fora do círculo de tijolos…”

O visitante disse isso esticando-se, tentando alcançar seu braço direito.

“Tente me alcançar. Rápido! A barreira que nos divide é elástica e o impacto deve ser  suficiente para te jogar para fora do círculo.”

Gui foi invadido por um medo profundo daquele desconhecido em que, por acaso, havia tropeçado. Resolveu fazer o que a criatura sugeriu e tentou, a todo custo, levantar o braço, projetando-o para frente. Pelo mais ínfimo dos segundos, parecia que o contato seria possível e as mãos de ambos quase se tocaram.

Então veio a explosão. Um impacto que se expandiu em forma de globo, arremessando Gui na direção da fenda.

Gui sentiu que perdia as forças da mesma maneira que o fogo de uma vela desaparece ao ficar sem oxigênio. Seu último pensamento foi que cairia na grama seca fora da chácara, e que ali poderia repousar por algumas horas. Para sua surpresa, porém, ele apenas continuou caindo.

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A chácara era singular.

Nela, limoeiros dividiam espaço com árvores de aspecto ancestral cujos galhos tortuosos, cobertos de musgo, prolongavam o tapete de restos vegetais em constante decomposição que cobria o terreno. Com exceção dos pássaros e dos minúsculos insetos que habitavam o labirinto de folhas secas e frutos caídos, o lugar exalava abandono e umidade.

Os raios de sol, que se projetavam ressabiados por entre folhas e espinhos, não eram suficientes para secar ou aquecer a atmosfera aquosa: a umidade que se agarrava ao enigmático pedaço de terra brotava do solo como os troncos das árvores, como o suor de um corpo humano. A chácara entregava-se, mansa, a seu iminente fim e, tal qual estrela que definha e se torna buraco negro, apenas aguarda.

Circundando a propriedade, havia um muro de tijolos queimados, tão decrépito quanto o resto do local. Visto da estrada de terra batida ou dos trilhos de ferro que, curvando-se à direita, seguiam em direção a nenhures, o lugar permanecia em indiferentes tons de verde amarronzado.

Imagine um peso de papel na interseção de realidades que, se ali fazem-se convergentes, em outros pontos não são menos do que diametralmente opostas ou infinitamente distantes.

Entenda que a atmosfera carregada do lugar é resultado de uma profunda desarmonia entre os planos de tempo-espaço, e que respirá-la seria como tentar falar debaixo d’água. Ninguém pisava na chácara há décadas, até o garoto chegar.

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Um homem de estatura mediana e olhar sonolento sai de casa e pisa na noite, inalando o ar límpido e estéril de uma madrugada que, dentro de algumas horas, se transformará em manhã. Ao entrar no Fusca verde-escuro estacionado em sua  garagem, ele deposita a marmita ainda quente no banco do carona e liga o rádio em uma estação AM. Para espantar o frio e os últimos resquícios de sono que se prendem a ele, insistentes, o homem leva as mãos à boca num gesto fluído que muito lembra uma prece, e sopra uma baforada quente na concavidade formada entre elas, esfregando uma na outra. O ritual é repetido uma vez mais antes da partida.

A mina, na qual o homem trabalha há onze anos, é produtora de carvão mineral e ocupa, negra e poeirenta, uma superfície de algumas centenas de metros quadrados. Enquanto dirige pelos quatro quilômetros e meio de estradas ruins, o homem não pensa, nem pelo mais ínfimo dos momentos, nos afazeres que o aguardam quando bater o ponto das quatro e meia, apenas pisca de sono e tenta prestar atenção na música. Distribuir vagonetes por túneis semi-iluminados e silenciosos é, para ele, algo natural e automático, o equivalente a esfregar as mãos em dias frios.

Ao passar pelo portão de entrada, cumprimenta o segurança com um  aceno e estaciona o carro atrás do escritório, no caminho pedregoso próximo a um poço de extração abandonado. Fora do carro, assiste sua respiração espiralar como vapor fugindo da chaleira. O frio morde a pele barbeada de seu rosto e, naquela quase-manhã, o homem de cabelos ralos e pretos antecipa, com certa satisfação, a atmosfera abafada e protetora do subsolo.

Na boca do túnel principal está localizado o depósito que abriga os geradores de energia, cujas pesadas alavancas o homem aciona sem pestanejar. O maquinário de ventilação ronca e estrala à medida que vai despertando. Os comandos de iluminação também são ligados e, de onde está, o homem acompanha os grossos cabos que levam energia ao âmago da terra, como se pudesse enxergar neles a eletricidade correndo selvagem.

Pelos trilhos, vai levando vinte vagonetes enfileirados e, distraído, calcula quantos deixará no primeiro nível quando percebe que na quarta bifurcação do túnel principal, cinquenta metros à sua direita, a luz pisca frenética, certamente em curto circuito.  O peso das poucas horas de sono se amarra ao fato de que o imprevisto atrasará seu serviço, mas o homem procede com a calma dos que há muito dominam seu ofício. Com um gesto bastante simples, redireciona os carrinhos na direção do problema e pensa em chamar o técnico eletricista.

Lembrar do eletricista, no entanto, provoca repentinas contrações em seu estômago. No largo corredor, onde a luz agora brinca intermitente, o eletricista morrera há menos de um mês. Em uma tarde ensolarada de inverno, o técnico havia sido chamado para fazer a vistoria trimestral e uma hora depois caía morto, por ter encostado na estrutura de ferro de um vagonete que, naquele exato momento, recebia a descarga de um minúsculo fio desencapado.

Desde o acontecido, aquele corredor o deixava tenso; a mina não discernia o incauto do precavido, mas engolia-os a ambos, ubíqua. Sentindo a saliva secar amarga e o sangue que pulsa acelerado, o homem vê um vulto ereto inerte entre a luz e a penumbra. Algo que parece uma sombra, um alguém.

Abandonando-se ao medo cru, o homem ignora a dormência que sente nas pernas e segue para fora a largos passos. Quando  alcança a saída, senta-se no chão forrado de brita e cospe. Fantasmas não existem, mas a mera lembrança da sombra o enchia de pavor. Apesar disso, ele precisava voltar e terminar o trabalho que nem sequer havia começado.

Fora da mina, a luz se projeta sonolenta em um céu que revela, contrariado, os primeiros indícios de dia. O horizonte daquela hora refletia a inquietude do homem.

 “Mas o senhor entrou na mina?”

“Entrei. Tive que entrar.” Disse o homem trinta anos depois. Ele passa a mão direita sobre o rosto em movimentos circulares, como se tentasse desmanchar a incômoda lembrança.

Eu, estranha à realidade de uma década que não me pertencia, projetava no fim de tarde que se adiantava a situação pela qual meu avô havia passado.

Ele conta que decidiu entrar na mina dirigindo os carrinhos na maior velocidade possível. O que quer que estivesse parado lá,  vivo ou morto, ele atropelaria. A luz ainda piscava quando ele sentiu o primeiro vagonete atingir a sombra.

Era uma aparição.

Não era uma aparição.

Poderia ser uma das pranchas de madeira que forravam o teto dos túneis e que, por algum motivo, havia se desprendido no meio da noite.

Poderia ser apenas uma sombra.

Ele me conta, encarando as próprias mãos,  que terminou o serviço  ouvindo a conversa alta dos trabalhadores que chegavam para o turno das seis.

Lá fora, outro dia de inverno começava, implacável.

3

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Havia uma garota chamada Micheli Corelli que surpreendeu-se observando um curioso cartaz pendurado no quarto do irmão mais velho. O cartaz era preto e mostrava duas caveiras que se encaravam agourentas, um símbolo que seu cerebrozinho rapidamente associou à músicas barulhentas e noite escura.  Havia nele também rosas, mas esses eram detalhes que, perto das medonhas caveiras, passavam despercebidos.

Como a maioria das pessoas de sua idade, Micheli tinha medo de monstros, e caveiras eram indiscutivelmente monstros que estavam mortos. No entanto, provando-se disposta a colocar seus preconceitos impúberes de lado, a garota deixou sua curiosidade voar solta e imaginou como seria a vida de um esqueleto. Perguntou-se também se um esqueleto poderia ter medo de outros esqueletos. Achou que não, pois eles são da mesma espécie e podem ficar tranquilos na presença um do outro, sem temer os grandes e vazios globos oculares alheios.

Pensar em esqueletos e nos lugares e horas sinistras em que eles habitavam havia se tornado um hábito inconsciente para Micheli. Na maioria das vezes, ela involuntariamente visualizava uma outra dimensão que sabia estar logo ali, há um pulo de distância da janela de seu quarto.

Aconteceu então que em uma das noites de primavera em que o vento frio do inverno ainda soprava alto, Micheli se viu misteriosamente transportada para essa dimensão. Primeiro, ela estava em seu quarto desenhando coqueiros, quando, num piscar de olhos, andava relutante pela calçada da casa de sua vizinha.

Micheli já havia visitado aquela casa antes, e não por vontade própria. Sempre soubera que a dona da casa era uma bruxa velha e que o lugar era seu covil, e entrar nela havia sido uma das situações mais estranhas e constrangedoras pela qual já passara na vida. Na época, ela tomara nota de que até a porta de entrada ficava do lado errado, virada para o cemitério nos fundos da propriedade e não para a rua saudável e iluminada que pavimentava sua frente.

Assim que pisou no limite da porta, notou imediatamente duas coisas: na sala onde estivera com sua avó há dois verões, um local escuro que cheirava a mofo, acontecia uma festa cujos participantes eram todos esqueletos. A princípio, ela ficou paralisada de pavor, com medo até de respirar muito alto e atrair a atenção de tão macabra reunião, e, por esse motivo, longos minutos se passaram sem que Micheli  sequer mexesse um dedo. Na entrada do corredor que levava aos quartos, a garota viu, no entanto, um enorme relógio de parede que, apesar de majestoso, parecia não funcionar. Perguntou-se,  esquecendo por um segundo de sua situação, qual era o propósito de manter um relógio que não trabalha, e, sem querer, deu um passo pra frente, efetivamente entrando no lugar.

Micheli respirou aliviada quando percebeu que seu movimento brusco não havia despertado o interesse das assustadoras criaturas. Para seu grande espanto, reparou que elas pareciam conversar animadamente umas com as outras. Algumas fumavam, outras abriam gavetas e até tentavam ligar um antigo e empoeirado aparelho de som. Será que vão dançar? Quando Micheli se deu conta de que os esqueletos eram tão indiferentes a ela quanto adultos em uma festa de rock, perdeu o medo e decidiu explorar o lugar.

Andou por cantos escuros e misteriosos. A bruxa parecia não estar em casa, mas Micheli descobriu o segredo de seu coração, que aparentava ser feito de cristal, quando na verdade era frágil e oco. Depois de algum tempo, cansou-se daquilo tudo e sentiu falta de casa. De forma tímida e desajeitada, dando o máximo de si para não parecer uma garota chorona,  dirigiu-se à caveira de lenço vermelho sentada em um decrépito sofá e perguntou como poderia sair dali. A caveira foi sucinta e apontou para o grande relógio quebrado. Micheli olhou para a peça de parede e desejou, com todas as forças, estar de volta em sua cama, desenhando coqueiros. Nada aconteceu. Virou-se para a caveira e perguntou-lhe novamente, a ponto de lágrimas, onde era a saída.

A caveira, dessa vez, respondeu, e sua voz soou como o fluxo de água de um riacho escondido em um conto de fadas.

“A saída está em você, criança, assim como o relógio também está. Observe-o marcar o tempo e ele lhe mostrará o caminho de volta.”

“Mas eu não entendo, esse relógio não funciona! Já olhei pra ele várias vezes e ele continua parado!”

“Olhe outra vez. Quando tiver atravessado o limite que afasta as duas realidades, lembre-se da seguinte frase:  o ontem, o hoje e o amanhã são como grãos de areia no fundo de um oceano, basta a mais leve das correntezas para mudá-los e embaralhar seus sentidos.”

Micheli fechou os olhos, percebendo-se, de repente, sonolenta. Quando tornou a abri-los estava de volta em sua cama, rodeada por folhas, cadernos e tocos de giz de cera. Com receio de esquecer a frase da caveira, já confusa em suas lembranças, a menina a escreveu, com sua letra gordinha arredondada,  num caderno de rabiscos, guardando-o depois no fundo da gaveta. Daquela noite em diante, Micheli Corelli nunca mais pensou em esqueletos e, com o tempo, esqueceu-se também da existência do caderno, embora lembrasse com bastante clareza da voz e do relógio que nunca funcionou e nem jamais funcionaria.