mar 

Aos poucos, o parque ia ficando deserto. Algo realmente inusitado para aquela hora do dia.

Centenas se dirigiam, apressadas, às saídas. Todos cabisbaixos, em um transe mediúnico. Algumas crianças corriam como galinhas assustadas, enquanto outras se arremessavam ao chão, prostradas, certamente por não saberem lidar com aquela agitação de manada que acometera seus adultos.

Não entendi porque toda a gente decidiu deixar o parque ao mesmo tempo, mas também não suspeitei de nada.

Quando cheguei ao lago maior, que era meu objetivo inicial, vi um garoto parado na margem com uma bandeirinha de plástico vermelho nas mãos.

Perguntei se ele estava bem. Ele disse que sim e apontou para um ponto qualquer na água.
O lago estava calmo e sujo como sempre esteve. Tudo ia bem.

Exceto pela ausência dos patos. E dos cisnes. Dos pelicanos. E até das pombas.

Perguntei ao garoto sobre a debandada. Ele voltou a apontar para a água.

Avisei que tudo bem. Que ele já podia parar de apontar.

Imaginei que devesse ter perdido a bola no lago, ou coisa parecida. Eu também vivia perdendo coisas quando era moleque, pensei. Só que nunca num lago, ou num parque.

Decidi então que minha boa ação do dia seria buscar a bola perdida do garoto. Ou o que quer que fosse. Sentei no chão de concreto úmido, desamarrei os cadarços e dobrei a barra da calça, deixando as canelas expostas.

Algo em mim transbordava e eu já nem lembrava dos patos.

Dei o primeiro passo e meus pés não afundaram, como era de costume. Uma após a outra, as solas endurecidas apenas tocavam a superfície sem submergir, criando ondas de impacto tão minúsculas que logo se dissipavam.

Cheguei ao ponto central e olhei meu arredor. Respirei aliviado. A não ser pelo garoto, o lugar agora estava completamente vazio.

Da margem, o tratante me observava sem cerimônia. Tinha o queixo apoiado na mão direita e o outro braço esparramado sobre a cerca. Não havia qualquer indício de perplexidade em seu semblante. Imaginei que provavelmente soubesse caminhar sobre a água também. Afinal, não era uma habilidade assim tão rara.

De qualquer forma, seu desprendimento roubou um pouco de minha boa vontade inicial.

A superfície da água era turva, mas eu conseguia ver toda sorte de objetos perdidos; espadas, pentes, um dente de leite e até um par de óculos 3D. Nenhum daqueles itens, porém, era o que eu precisava. Durante algum tempo, só me deparei com alarmes falsos.

A tarde já ia adiantada quando o relógio começou a emergir. Era um simples e antigo relógio de bolso; grande demais para uma criança, grande demais  para um adulto. Quem o criara devia ter suas próprias ideias sobre proporções humanas.

Seus mecanismos eram bonitos de se observar, apesar de estarem todos petrificados. Virei para o garoto, erguendo-o. Ele respondeu com um gesto claro. Queria que eu desse corda no aparelho, o que fiz sem titubear.

O relógio tossiu pra vida e seus ponteiros se posicionaram, marcando três minutos pra meia-noite.

Nesse instante, o lago se transformou em um espelho perfeitamente plano, refletindo um céu crepuscular sem estrelas. Depois, imagens desconexas foram se sobrepondo em ritmo de epopeia na superfície.

Havia descobertas, guerras, rituais e grandes aeronaves seguidas por um campo de trigo a perder de vista. Havia gente brigando, brincando, gemendo, chorando, cuspindo e se afogando no próprio silêncio. Havia gritos, gargalhadas e dor.

De repente, o relógio marcou meia-noite.

E então tudo virou deserto. O que até então existira foi obrigado a ceder lugar a uma crosta árida e homogênea que se estendia por léguas sem fim. O ar, já rarefeito, era aos poucos substituído por uma discreta melancolia.

Não sabendo o que esperar daquele vácuo existencial, adiantei os ponteiros do insólito aparelho para a primeira hora, minuto vigésimo-quinto.

O deserto virou mar, um mar revolto, ansioso, desnorteado como um urso arrancado da hibernação.

Vi o garoto da margem uma última vez e joguei o relógio de volta para ele. Ele o guardou no bolso da bermuda e saiu caminhando até ser engolido sem cerimônia pela fúria daquela sopa primordial.

Eu fiquei ali, sentado nas ondas da primeira tormenta, sentindo os pingos de chuva molharem meu rosto. Sonhava com parques, imaginava estranhas formas de vida e sussurrava seus possíveis nomes, sorrindo vez por outra e antecipando as transformações daquele novo ciclo.

junipo

Gui despencava em velocidade constante. Perdera a noção do tempo, mas concluiu estar preso em algum tipo de sonho maluco quando seu corpo misteriosamente alinhou-se na vertical e seus pés tocaram uma superfície molhada. Contrariando todas as leis de Newton, seu peso e velocidade não chegaram a sequer perturbar a água.

Olhou ao redor, mas não viu muito. Seus sentidos estavam descompassados e ele enxergou apenas uma luz estourada e alguns borrões.  Quando seu cérebro conseguiu se adaptar e distinguir formas mais nítidas, Gui percebeu que estava de pé no meio de um vasto oceano, e também que a única parte submersa de seu corpo era o tornozelo.

No horizonte, havia um gigantesco sol que coloria o oceano com tons de amarelo queimado, conferindo ao lugar um ar de pintura. O céu também deixava-se contagiar por aquela luz e as esparsas nuvens absorviam o sépia modorrento e crepuscular.

Seu efeito no lugar era quase nulo. O lugar, no entanto, exercia uma força esmagadora  sobre seu corpo, que parecia prestes a implodir. Arriscou alguns passos. Teve medo de ser engolido por aquele abismo de água, mas considerou que se ficasse parado congelaria.

“Gui”, disse um eco distante.

Virou-se rapidamente para o que pensou ser a direção do som, mas não havia ninguém.

“Que lugar é este?”, perguntou para o nada.

“Este lugar está logo abaixo do círculo. É uma realidade intermediária chamada JU NI PO, a terra do sol poente, onde tudo apenas permanece.” O visitante pronunciava as sílabas separadamente, com cuidado.

“Junipô? Como naquela canção famosa?”

No oeste bem distante, baby ô 

Gritei em vão pra alguém vir buscar (e me levar)

Pra terra do sol infinito ô 

Lá onde você deve estar

Pra terra de Junipô ô 

Lá onde você deve estar

Depois de um tempo, acrescentou: “Como faço pra sair daqui? Tô me sentindo estranho…”

“Não é tão simples assim, Gui. Sair nunca é tão fácil quanto entrar.”

“Olha, esse tipo de coisa não me ajuda. Preciso saber em qual direção seguir.”

“Todas as direções deste plano desembocam no mesmo lugar.”

Gui sentiu-se levemente irritado com aquelas afirmações vagas. Nunca entendeu porque as pessoas que conhecia não falavam coisas concretas como a grama é verde, o céu é azul, o norte é aqui e o sul ali…

Se bem que o céu em Junipô não era exatamente azul.

“Você precisa achar o Caronte”, terminou a frase junto com a voz do visitante, como se adivinhasse as palavras.

Virou-se de costas para o sol poente e começou a caminhar. O mar não tinha ondas, talvez por não ter um limite, uma costa. Era uma superfície perfeitamente plana que mais parecia uma imensa lona onde tons de amarelo e azul travavam uma guerra infinita.

À medida que caminhava, Gui sentiu que o oceano sob seus pés estava vazio. Tinha certeza de que era profundo além da imaginação, mas não percebia nada se mexer. Nenhum peixe nadava apressado e nenhuma bolha de ar flutuava desajeitada, denunciando alguma forma de vida.

Do que vale um oceano sem peixe?

Seria desagradável ficar ali por muito mais tempo.

Eventualmente avistou uma estrutura metálica colossal que parecia brotar indiferente da água. Parecia a carcaça esquelética semissubmersa de um navio outrora corpulento. Quando chegou bem perto, Gui viu que minúsculas conchas amarronzadas prendiam-se às partes que tocavam a água, porém uma rápida inspeção revelou um completo abandono por parte dos habitantes.

Lembrou-se, então, da única vez que visitara o oceano. Há três anos, em um domingo abafado no início do outono, Beatriz insistira que ele a acompanhasse em uma de suas visitas a uma cliente cuja casa ficava no litoral.

“É uma mansão na encosta de um morro, você vai gostar!”

Horas depois, desciam a trilha que desembocava em uma pequena baía de areia amarronzada. O céu tinha um aspecto triunfante, claro e límpido, quase sem nuvens. Os gritos agudos dos pássaros nativos, o cheiro forte de sal e os rítmicos estrondos das ondas compunham um universo temperamental que parecia prestes explodir.

Caminharam por toda a orla e resolveram fazer um piquenique sobre a formação rochosa que marcava uma das extremidades da praia. Enquanto observava as ondas quebrarem insistentes contra as rochas mais baixas e depois escorrerem rasgadas por entres as pontiagudas conchas, Gui devorava um sanduíche de atum e picles preparado na véspera.

“Mãe, não parece que tem um pulmão respirando por trás do movimento das ondas?”

A lembrança do episódio se desfez e Gui  lembrou-se da chácara e de como tinha ido parar em Junipô.

Olhou a estrutura e decidiu escalar a viga mais próxima, uma barra horizontal que não estava tão enferrujada. Fez os movimentos devagar, tomando cuidado para não se machucar nas extremidades calcificadas das conchas. Quando finalmente conseguiu se equilibrar, voltou a ouvir a voz do visitante, sempre uma oitava mais baixa do que a sua.

“Gui, você precisará transpor esse plano. Só assim estará livre e poderá retornar pela passagem que nos trouxe até aqui.”

“Tá bom. E como faço isso?”

“Você vai ter que decidir.”

“Decidir o que?”

“Este lugar é o ponto antes da bifurcação. Você está parado nele porque é só isso que ele permite: o não movimento, o imutável presente, o segundo antes da tempestade. Assim que você tomar uma decisão…”

Uma forte vibração dissipou as últimas palavras de seu interlocutor.

Um terremoto parecia se aproximar e toda a estrutura metálica reverberava com ele. Gui percebeu a água subitamente ameaçadora e agarrou-se na viga vertical mais próxima. Imaginou-se engolido por aquele mundo submarino e foi dominado por um medo primitivo.

Embora a superfície permanecesse calma, era possível perceber uma grande quantidade de água sendo deslocada nas profundezas. Algo estava se movendo debaixo da lona, vindo em sua direção.

O pânico havia se instalado por completo quando uma forma negra e extensa se materializou sob a fina membrana da superfície. A princípio, Gui achou que fosse uma baleia, mas logo percebeu estar enganado, pois o animal não tinha exatamente o mesmo formato e se movia com extrema rapidez.

Depois de um tempo na mesma posição, Gui conseguiu mover um dos braços e soltar-se da viga. Ao redor da estrutura metálica, o animal continuava a nadar, espreitando-o.

“Ele está esperando sua decisão.” Conseguiu antecipar que o visitante diria algo assim.

“Ele quem?”

“O Caronte. É ele que vai te atravessar.”

Só então percebeu que sua voz também tremia. Havia algo naquele lugar que o fazia  vibrar como as cordas de um instrumento musical.

Pule, disse o visitante.

Gui fechou os olhos, respirou fundo e mergulhou. Seu corpo submergiu por completo e ele ficou como que suspenso, á. Para sua surpresa, a temperatura da água estava agradável e a sensação de conforto que tomou conta dele o fez parar de tremer imediatamente. Depois de alguns segundos, abriu os olhos e enxergou o animal em toda sua extensão.

Automaticamente, seu cérebro vasculhou por palavras que pudessem descrever aquela criatura, mas não as encontrou. Imaginou se tratar de um dos seres pré-históricos, sobrevivente de um tempo ancestral no qual tudo era mar e o que não era ainda não existia. Um ser que foi criado durante a primeira tempestade.

Gui solta o ar que havia prendido antes do mergulho e diz: decidi voltar.

O Caronte se aproxima ameaçador e gigantesco, revelando uma bocarra cheia de dentes desalinhados. Gui o encara passivo e  apenas sente-se desmanchar naquele desconhecido em que havia tropeçado.