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She's the one

Somos seres limitados.

Nossa percepção nos obrigada a acreditar que o tempo é linear, claramente dividido em passado, presente e futuro. Nessa dinâmica, há uma sucessão natural de eventos; o trigo brota, cresce e seca.

Pular fora do determinismo dessa moldura é cair numa caixa de incertezas.

Imagine que transgredir, aqui, significa ignorar as sombras dançantes nas paredes da caverna e caminhar em direção à saída. Mas o que acontece quando você efetivamente chega nela? O que acontece quando você alcança o limite e o transpõe?

Seria lógico supor que seus olhos e seu cérebro, por não estarem habituados a tal nível de claridade, precisarão passar por um período de recalibragem.

A princípio, você não enxerga nada. A luz te deixa cego. Porém, depois de uma necessária adaptação, você começa a distinguir cores e formatos.

E você se acostuma com isso, com essa nova realidade que se descortina perante seus incrédulos olhos. Você se reinventa. Há um upgrade em sua configuração básica.

Você habita agora uma zona marginal, e o ponto onde você começou nada mais é do que uma referência, uma diminuta porta que já foi atravessada.

Esqueça a dinâmica linear e visualize a grandeza tempo como um campo de fluxo energético no qual estamos imersos e cuja existência e continuidade é impulsionada por movimento, por transformação.

Entenda que sua presença, sua história, suas ações são o combustível que mantêm essa engrenagem funcionando.

Não se pergunte o que veio antes e o que virá depois. Apensa siga em frente como Alice seguiu o coelho branco pela toca. Caia e descubra algum país das maravilhas.

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Havia uma garota chamada Micheli Corelli que surpreendeu-se observando um curioso cartaz pendurado no quarto do irmão mais velho. O cartaz era preto e mostrava duas caveiras que se encaravam agourentas, um símbolo que seu cerebrozinho rapidamente associou à músicas barulhentas e noite escura.  Havia nele também rosas, mas esses eram detalhes que, perto das medonhas caveiras, passavam despercebidos.

Como a maioria das pessoas de sua idade, Micheli tinha medo de monstros, e caveiras eram indiscutivelmente monstros que estavam mortos. No entanto, provando-se disposta a colocar seus preconceitos impúberes de lado, a garota deixou sua curiosidade voar solta e imaginou como seria a vida de um esqueleto. Perguntou-se também se um esqueleto poderia ter medo de outros esqueletos. Achou que não, pois eles são da mesma espécie e podem ficar tranquilos na presença um do outro, sem temer os grandes e vazios globos oculares alheios.

Pensar em esqueletos e nos lugares e horas sinistras em que eles habitavam havia se tornado um hábito inconsciente para Micheli. Na maioria das vezes, ela involuntariamente visualizava uma outra dimensão que sabia estar logo ali, há um pulo de distância da janela de seu quarto.

Aconteceu então que em uma das noites de primavera em que o vento frio do inverno ainda soprava alto, Micheli se viu misteriosamente transportada para essa dimensão. Primeiro, ela estava em seu quarto desenhando coqueiros, quando, num piscar de olhos, andava relutante pela calçada da casa de sua vizinha.

Micheli já havia visitado aquela casa antes, e não por vontade própria. Sempre soubera que a dona da casa era uma bruxa velha e que o lugar era seu covil, e entrar nela havia sido uma das situações mais estranhas e constrangedoras pela qual já passara na vida. Na época, ela tomara nota de que até a porta de entrada ficava do lado errado, virada para o cemitério nos fundos da propriedade e não para a rua saudável e iluminada que pavimentava sua frente.

Assim que pisou no limite da porta, notou imediatamente duas coisas: na sala onde estivera com sua avó há dois verões, um local escuro que cheirava a mofo, acontecia uma festa cujos participantes eram todos esqueletos. A princípio, ela ficou paralisada de pavor, com medo até de respirar muito alto e atrair a atenção de tão macabra reunião, e, por esse motivo, longos minutos se passaram sem que Micheli  sequer mexesse um dedo. Na entrada do corredor que levava aos quartos, a garota viu, no entanto, um enorme relógio de parede que, apesar de majestoso, parecia não funcionar. Perguntou-se,  esquecendo por um segundo de sua situação, qual era o propósito de manter um relógio que não trabalha, e, sem querer, deu um passo pra frente, efetivamente entrando no lugar.

Micheli respirou aliviada quando percebeu que seu movimento brusco não havia despertado o interesse das assustadoras criaturas. Para seu grande espanto, reparou que elas pareciam conversar animadamente umas com as outras. Algumas fumavam, outras abriam gavetas e até tentavam ligar um antigo e empoeirado aparelho de som. Será que vão dançar? Quando Micheli se deu conta de que os esqueletos eram tão indiferentes a ela quanto adultos em uma festa de rock, perdeu o medo e decidiu explorar o lugar.

Andou por cantos escuros e misteriosos. A bruxa parecia não estar em casa, mas Micheli descobriu o segredo de seu coração, que aparentava ser feito de cristal, quando na verdade era frágil e oco. Depois de algum tempo, cansou-se daquilo tudo e sentiu falta de casa. De forma tímida e desajeitada, dando o máximo de si para não parecer uma garota chorona,  dirigiu-se à caveira de lenço vermelho sentada em um decrépito sofá e perguntou como poderia sair dali. A caveira foi sucinta e apontou para o grande relógio quebrado. Micheli olhou para a peça de parede e desejou, com todas as forças, estar de volta em sua cama, desenhando coqueiros. Nada aconteceu. Virou-se para a caveira e perguntou-lhe novamente, a ponto de lágrimas, onde era a saída.

A caveira, dessa vez, respondeu, e sua voz soou como o fluxo de água de um riacho escondido em um conto de fadas.

“A saída está em você, criança, assim como o relógio também está. Observe-o marcar o tempo e ele lhe mostrará o caminho de volta.”

“Mas eu não entendo, esse relógio não funciona! Já olhei pra ele várias vezes e ele continua parado!”

“Olhe outra vez. Quando tiver atravessado o limite que afasta as duas realidades, lembre-se da seguinte frase:  o ontem, o hoje e o amanhã são como grãos de areia no fundo de um oceano, basta a mais leve das correntezas para mudá-los e embaralhar seus sentidos.”

Micheli fechou os olhos, percebendo-se, de repente, sonolenta. Quando tornou a abri-los estava de volta em sua cama, rodeada por folhas, cadernos e tocos de giz de cera. Com receio de esquecer a frase da caveira, já confusa em suas lembranças, a menina a escreveu, com sua letra gordinha arredondada,  num caderno de rabiscos, guardando-o depois no fundo da gaveta. Daquela noite em diante, Micheli Corelli nunca mais pensou em esqueletos e, com o tempo, esqueceu-se também da existência do caderno, embora lembrasse com bastante clareza da voz e do relógio que nunca funcionou e nem jamais funcionaria.

St-James-Park,-verão-2010

“Oi, Agnes! Preciso levar as últimas caixas pro segundo andar. Será que você pode me ajudar?”

“Claro. Ajudo sim.”

Enquanto subia as escadas com algumas caixas vazias, Agnes refletia sobre o velho Anselmo. Por prestar atenção nos sinais que flutuavam soltos, e que se não fosse por ela passariam despercebidos, ela sabia que a função dele era catalogar o arquivo pessoal dos antigos donos do prédio, uma família de diplomatas que, durante a década de noventa, decidira mudar-se para uma cidade mais moderna e central.

Desde que o departamento fora transferido para lá, Agnes se surpreendia  fantasiando sobre como o prédio teria sido antes de se tornar propriedade do governo. O que ela fazia era rebobinar a fita do tempo para poder visualizar o fabuloso edifício em seus dias de glória: um lugar de jantares importantes, um centro de convergência de notícias sobre o mundo e de pessoas que viajavam pelos seus infinitos cantos.

A grande maioria de seus colegas não demonstrava qualquer simpatia ou interesse pelo velho, e, por esse motivo, parecia não enxergá-lo. Era de conhecimento geral, porém, que ele aparecia e desaparecia pelos sinuosos corredores carregando livros e documentos.

De vez em quando, Agnes assistia-o observar com uma tristeza distante os quadros mofados e o papel de parede que descolava decadente dos cômodos abandonados, embora raramente lamentasse em voz alta. A fragilidade do corpo do velho era contradita pela sagacidade de sua mente e pelos grandes olhos azuis claro, os quais conferiam-lhe um ar de perpétua  sabedoria auto-suficiência.

Agnes ponderava tudo isso quando, de repente, se deparou com aqueles grandes olhos virados pra ela, observando-a pacientemente, como que esperando uma resposta a uma pergunta. Ele havia parado na frente do que parecia ser um escritório e a examinava com uma expressão de curiosidade.

“Ch-chegamos?” Gaguejou, acordando de seus devaneios. Estava tão absorta em seus pensamentos que se alguém lhe perguntasse em qual andar estavam, ela não saberia responder.

“Sim, chegamos. E você pode colocá-las perto do divã. Obrigado.”

“Tudo bem, sem problema.” Soltou uma risada nervosa.

Ela depositou as caixas perto de um móvel elegante, mas desbotado e gasto no centro. Agnes percebeu, então, que metade das estantes que decoravam as paredes daquele cômodo estavam vazias. Os livros estavam no chão, cuidadosamente dispostos sobre um tecido azulado parecido com veludo.  Sentiu então uma vontade asfixiante de perguntar sobre a vida naquele lugar e sobre a vida do velho, que parecia se confundir com a história do prédio.

“O senhor  já trabalhava neste prédio quando os diplomatas moravam aqui?”

Ele a encarou com uma expressão que era metade pesar, metade euforia. Pelo menos, foi assim que Agnes interpretou.

“Durante vinte e três anos eu fui um mordomo neste lugar, desta família. Servi em festas e jantares, presenciei conversas sobre guerras em países tão distantes que soavam tão exóticos quanto inexistentes. Vi as crianças correndo pelos corredores e se escondendo pelo jardim, e, às vezes, ainda ouço o menino chorando quando tropeçou subindo a escadaria e quebrou o braço direito.”

O velho Anselmo sorriu.

Agnes respirou fundo.

"Tento imaginar como essa época deve ter sido."

"Grandiosa" respondeu o velho.

Algum tempo se passou sem que Agnes soubesse como continuar. Tudo o que lhe vinha à cabeça soava estúpido e artificial comparado ao que o velho acabara de expressar. O momento exigia reverência.

O velho também não falava. Parecia estar tomado como que por bruxaria, imerso em memórias fugidias de um tempo que se insinuava presente, mas que no fundo era apenas passado, remoto e irreversível. Anselmo andou até uma estante ainda ocupada e retirou um porta-retrato de uma das prateleiras.

A foto, em tons de um sépia desbotado, contrastava com a moldura que a sustentava, feita de um metal polido que reluzia esnobe em formato de flor. A cena era de duas crianças correndo ao redor de uma fonte, no que parecia ser o pátio da casa. No canto direito, era possível ver um homem com os braços cruzados atrás do corpo recostado em um dos pilares à sombra da casa.  Na outra extremidade, havia um pedaço de tecido flutuando. Parecia a barra de uma saia sendo soprada enquanto alguém caminhava na direção oposta ao vento.

Assim estavam os dois, envoltos num silêncio contemplativo, quando pessoas passaram no corredor falando e rindo alto. Pela animação, a jornada de trabalho tinha chegado ao fim, e Agnes conseguia distinguir o fechamento de mais um dia, e se apressou em voltar à recepção. Ao sair em direção à escadaria, olhou pra trás e viu que Anselmo colocara o porta-retrato junto com os livros a serem transportados. O velho, então, a encarou por um minuto.

“Obrigado por me ajudar com as caixas, Agnes.”

"Obrigada também." Respondeu balançando a cabeça e saindo apressada.

Naquela noite,  depois de lavar com água fria todo calor e poeira que envolviam a tudo e a todos no centro daquela cidade, Agnes deitou-se no sofá e pôs-se a imaginar um tempo que não lhe pertencia. Horas depois, presa em sono profundo, sonhou consigo andando contra o vento, passando por portas que se balançavam convidativas e hipnotizantes como um pêndulo de Newton.

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O prédio em que Agnes trabalhava era um enorme legado arquitetônico de múltiplas janelas que teimava em existir no centro obsoleto e abafado de uma capital igualmente obsoleta, mas voluntariamente ignorante deste fato, e, portanto, estranha de si mesma. Antigo, ruidoso e desbotado, o prédio debochava de todo esforço físico e criativo investido em sua revitalização: a pintura, que ainda cheirava fresca e os reparos em sua tubulação não conseguiram reverter, ou sequer disfarçar, os longos anos de negligência e abandono.  O Departamento de Trânsito e Infraestrutura Urbana não teve outra opção senão adequar-se a tais condições.

A princípio, os novos ocupantes ficaram impressionados com o tamanho generoso da propriedade e com as inúmeras possibilidades de distração que o pátio proporcionaria nas horas de folga, especialmente aos fumantes. O charme colonial da fachada externa do edifício aliado aos simpáticos coqueiros que se balançavam pueris em seu arredor galgaram até o mais implicante dos ânimos, e a mudança logo foi aprovada por todos.

Ninguém, entretanto, havia previsto o quão difícil seria superar a resistência que o prédio oferecia a toda e qualquer tentativa de tornar seu interior receptivo e habitável. A internet fora instalada depois de vários e graves contratempos, mas era lenta e imprevisível, como se estivesse operando de má vontade, fora do lugar. Grande parte da tecnologia carregada porta adentro estava agora acumulando poeira em algum canto esquecido. O prédio repelia, com sua atmosfera inexorável, tudo que nascera depois da virada do século.

Agnes entendia e sentia que o prédio também não estava lá muito confortável com toda a movimentação de pessoas em seus corredores de pé-direito altíssimo. De seu balcão estrategicamente posicionado entre as duas magníficas escadarias que levavam ao segundo piso e embelezavam o salão de entrada, Agnes imaginava conseguir distinguir nos rangidos da madeira velha do assoalho uma sinfonia de protesto. Enganava-se, porém. Bem se sabe que prédios são filhos insensíveis de pais indiferentes; passivos amontoados de pedras e tijolos que, assim como papagaios, apenas repetem o que lhes é ensinado. O prédio de Agnes continuava repetindo-se ruidoso e desbotado. Ranzinza, nostálgico.

Agnes trabalhava na tarde cinzenta daquela terça-feira como trabalhara em tantas outras: jogando olhares sorrateiros pro relógio, acompanhando a lentidão de seus ponteiros. Imaginava que o tempo naquele lugar funcionava de acordo com uma lógica própria, e, distraída, tentava desvendar essa lógica quando o velho se materializou em sua frente.