dual

Quando a câmera não existe, a vida segue rindo de si, desinibida, roliça sobre os sofás do mundo.

Movimentos começam e terminam sem o drama da representação. Há significado, mas ele é remoto, fora de alcance.

O ser humano é o elemento problematizador, por vezes cíclico, não raro crítico de suas ações. A lente é o instrumento de expressão, de defesa, de desbravamento do mistério que ele sente existir em seu interior.

O papel do observador é o de intruso, mas um intruso ingênuo de si mesmo, uma criança curiosa.

running around

No alto da trilha, o destino vadiava. A poeira seca e sufocante que se expandia a partir do atrito de nós dois impedia nossos passos, ainda que urgentes.

Fingia ser rocha, sólida, imponente, pedaço de planeta, mas era só poeira mesmo, só migalhas, decomposição do que outrora pulsava.

2

you should know

No início, não entendi bem o que ela dizia.

Seus lábios moviam-se em câmera lenta e tudo estava fora de foco. O céu era claro demais, de um branco quase incômodo, e eu sentia náuseas, como se estivesse lendo dentro de um veículo em movimento.

Assim que comecei a captar os sons, passei a traduzi-los. Uma delas falava sobre o universo, enquanto a outra lutava para prender os cabelos com um elástico apertado demais.

A mulher que falava gesticulava animadamente, explicando que o universo conhecido só é possível porque as grandezas tempo e espaço existem de forma separada.

Todos nós existimos em algo que parece com um tecido, um tecido de espaço-tempo, dizia ela. Os corpos celestes estão inseridos nele. As torções nesse tecido são o resultado direto de uma explosão inicial (como as ondas se propagando na superfície de um lago a partir de um ponto de impacto central).

Chamamos esse evento de Big Bang. Big Bang é a expressão que descreve como um ponto de densidade inimaginavelmente alta explodiu, dando origem ao universo, que, por consequência, está em constante expansão.

Agora vem a parte interessante.

Nesse momento, ela baixou a voz e disse, em tom de confissão, que o Big Bang nada mais é do que um ponto em que tempo e espaço formaram uma grandeza única.

Sua interlocutora fez uma careta de quem não entendeu.

Fica difícil para o cérebro humano conseguir processar tempo e espaço unificados. É algo que extrapola nosso escopo de compreensão, e até de imaginação.

Aqui, adotou uma postura especulativa. Sombras de dúvida nublaram seu rosto.

Quando voltou a falar, parecia ter perdido um pouco da animação inicial. Basta saber que tal fenômeno é tão insustentável que resultou em uma explosão.

Ela tirou um papel da bolsa e mostrou à companheira, que parecia ter desistido, momentaneamente, do elástico.

O papel mostrava um gráfico, com as duas grandezas dispostas de forma perpendicular.

Havia um campo amarelo entre elas. Jéssica apontou para ele e disse que era o tecido no qual podemos existir. Por enquanto, ressaltou. Já sabemos que daqui alguns milhões de anos a expansão tornará a vida no universo uma impossibilidade.

Agora feche os olhos, ordenou bruscamente. Imagine que é possível reproduzir os traços e vetores repetidas vezes, formando um padrão geométrico infinito.

O fenômeno que conhecemos por Big Bang é cíclico. Isto quer dizer que a convergência dessas duas grandezas não foi um acontecimento único.

Não foi? Eu sempre ouvi falar de um só, questionou a outra.

Não. A convergência se repete. Estamos inseridos numa estrutura que se retroalimenta, saca?

Que maluquice, Jéssica.

Pois é.

Então elas se deitaram na grama, cruzaram as mãos sobre a barriga e passaram a encarar aquele céu estourado sem dizer mais uma palavra.