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To break the wheel” ou “quebrar a roda” tem sido uma fala comum nas últimas temporadas de Game of Thrones. A expressão é usada frequentemente por uma das aspirantes ao trono de ferro, o símbolo absoluto do poder no mundo criado por G.R.R. Martin.

Nos livros que deram origem à série, conquistar o trono de ferro significa conquistar Westeros, um continente composto por sete reinos controlados por regentes locais.

Quando a personagem de Emilia Clarke, Daenerys Targaryen, promete quebrar a roda, sua intenção é destruir o sistema que esmaga o povo para o benefício das nove casas que se alternam no poder. O objetivo? Sedimentar as fundações para uma realidade melhor.

No entanto, a forma com que ela pretende fazer isso é justamente governar como monarca, dando continuidade ao sistema vigente. Essa incongruência tem gerado desconfiança, mas fica a pergunta: se Daenerys de fato quebrar a roda, Westeros melhorará?

O fato é que os personagens desse mundo fictício compartilham as mesmas características das pessoas que habitam o mundo real. Em suas múltiplas trajetórias, há tantos erros e acertos quanto há em nossas próprias.

Rompantes de coragem, lealdade, honra e amor são seguidos por atos de crueldade, insensatez, egoísmo e traição. Só que, na vida real, por sermos nós os protagonistas de cada dia, fica difícil entender o desenrolar dos eventos e prever suas consequências.

Podemos compreender a lógica que rege o universo criado por Martin, mas a lógica que rege a nossa realidade nos foge quase que completamente.

O que dizer, por exemplo, das ideias perigosas e potencialmente catastróficas que tomam forma por aqui?

Em Charllotesville, nos EUA, e em centenas de outros lugares, a luta pelo poder, a ilusão da superioridade e a intolerância levam indivíduos e grupos a perpetuarem o ódio e a violência. O pior? Esses atos têm quórum em muitas instâncias da sociedade.

No Brasil, já deixamos de viver em uma democracia há tempos. Os indivíduos que ocupam hoje o Palácio do Planalto, que legislam, que executam e que julgam, o fazem em causa própria e em nome dos interesses obscuros de grupos e corporações criminosas.

A nível global, o momento que vivemos é de angústia, de incertezas. A situação é tão complexa que os ponteiros do Doomsday Clock foram adiantados novamente e estão posicionados em dois minutos e meio para a meia-noite, o mais próximo em décadas.

Assim como os personagens de Martin, nós também estamos presos em uma roda, nós também perpetuamos a engrenagem de um sistema que nos esmaga. Diferente de Westeros, entretanto, os mecanismos que fazem a nossa roda girar não correspondem a famílias e nem têm brasões.

Eu diria que esses mecanismos ou gatilhos são tendências comportamentais e psicológicas. A ignorância, por exemplo, é um mal que em maior ou menor intensidade faz parte de nosso cotidiano. Ela deforma nossas ações, intenções e pensamentos, demandando muita força de vontade para ser desenraizada.

Quando operam em larga escala e em conjunto, esses gatilhos deixam marcas tão horrivelmente profundas quanto as da saga de Martin. Ao longo da história de nossa espécie, a combinação ignorância-medo já culminou em inúmeros massacres e guerras, já serviu de base para a instauração e legitimação de regimes totalitários, já ceifou vidas e sufocou ideias revolucionárias.

Então, vamos lá: como quebrar a nossa roda?

Como mudar essa dinâmica se nós somos parte de sua engrenagem, se esses mecanismos emanam de nós, de nossa convivência, de nossas interações? Qual é a solução se essas tendências comportamentais parecem intrínsecas à nossa existência?

A roda precisa implodir. O processo precisa ocorrer de dentro para fora, e nós, seres humanos, precisamos sair desse evento mais fortes, mais sábios, mais dispostos a cooperar e a tolerar.

Por onde começar?

O primeiro passo é limar a engrenagem que faz a roda girar. Para isso, precisamos olhar para nossa trajetória, coletiva e individual, reconhecer nossa agência, nossa responsabilidade sobre nossas ações e aprender com nossos erros.

Depois desse momento de autoquestionamento e reflexão, a educação terá um papel importante. Não a educação dogmática a que normalmente somos submetidos, mas uma que estimule a reflexão e a análise crítica; uma educação de fato transformadora, que empodere os indivíduos.

Iniciativas nesse sentido já existem. Temos ações encabeçadas pela Unesco para reduzir o analfabetismo global, temos plataformas como a TED Talks, dedicada a disseminar grandes ideias, temos iniciativas de conscientização e de sustentabilidade.

Outro avanço vem da tomada de consciência a respeito de nossa posição no universo. Por um lado, somos absolutamente privilegiados por viver num planeta tão belo e acolhedor. Por outro, nossa Terra é um minúsculo grãozinho de poeira flutuando na imensidão do cosmos.

A descoberta dessa imensidão é um antídoto poderoso para noções de grandeza. Qualquer pretensão de superioridade aqui é tão absurda quanto ilusória.

Comecemos, então, a implosão da roda por nós mesmos, por nossos vícios, nossa mentalidade, pelas tendências que reproduzimos sem pensar, sem questionar. Busquemos o que agrega e não o que diminui, lendo mais, pesquisando mais, ouvindo mais e compreendendo mais.

Não haverá solução miraculosa. O antídoto para a ignorância é a busca por conhecimento, o antídoto para a intolerância é a empatia. Como consegui-los? Com consciência, força de vontade e perseverança.

A ajuda não virá de fora enquanto o interior ainda não tiver decidido em qual direção seguir.

Não basta esperar que um salvador destrua a roda por nós. Isso só geraria caos e — como bem pontuou Littlefinger em algum momento da série — o caos é uma escada (na qual sobem os mais pavorosos tipos).

No mundo criado por Martin, a roda poderá sim ser quebrada por Daenerys Targaryen, e o que virá depois servirá de material para um novo livro. A roda do mundo real, entretanto, só deixará de existir quando for desmontada bloco por bloco, peça por peça, pelas bilhões de mãos que compõem a humanidade hoje.

Com frequência, penso em como utilizar as palavras para modificar a realidade que me cerca. Penso nisso quando falo e sobretudo quando escrevo.

Será que cada palavra escrita impacta de forma concreta a existência de quem a lê? Afinal, qual é o potencial revolucionário contido nesses aglomerados de letras e fonemas?

Para começo de conversa, palavras são estruturas simbólicas que transmitem ideias. Essas estruturas têm o poder de registrar o abstrato e de traduzi-lo em conhecimento acessível, viabilizando o diálogo, a troca de informações, além da construção e acúmulo de conhecimento geração após geração.

Historicamente falando, foi a criação de um sistema de comunicação estruturado que permitiu o surgimento das primeiras sociedades organizadas. A escrita foi a base a partir da qual as civilizações ancestrais do Crescente Fértil, por exemplo, puderam se desenvolver.

Embora o formato da comunicação tenha evoluído (dos papiros egípcios e placas de argila sumérias para as telas luminosas dos tablets e smartphones), as palavras continuam desempenhando a mesma função.

Um dicionário nada mais é do que um repositório de conhecimentos acumulados durante séculos sob a ótica de um idioma específico. Nele, cada palavra representa um conceito e transmite um significado.

O elo perdido

Por transmitirem significados, as palavras funcionam como pontes, conectando diferentes individualidades e temporalidades longínquas.

Ao colocar uma ideia no papel, você está viabilizando um conceito, dando-lhe nome e endereço.

O que seria a leitura de um texto escrito no século IV a.C, como A República de Platão, senão o estabelecimento de um contato com uma temporalidade distinta? Escritor e leitor estão separados por um oceano de tempo e de espaço, e, ainda assim, unidos por uma mensagem. Esse paradoxo representa, para mim, o poder transcendental da escrita.

Essa noção de que as palavras funcionam como pontes conectoras entre indivíduos e posições díspares inspira minha prática e meu pensamento. É a partir das palavras que posso verbalizar e sedimentar ideias, projetar alternativas de ação, provocar mudançar e criar soluções.

É por meio delas que busco refletir sobre a condição humana no século presente, sobre sua jornada até aqui e sobre os possíveis caminhos até um futuro próspero e igualitário.

Há alguns meses, publiquei um texto sobre como nós, seres humanos, somos agentes da mudança. Ele está disponível na plataforma Quora.com, em inglês, e no Portal Raízes, em português.

Em ensaios como esse, convido o leitor a refletir sobre sua individualidade e sobre seu papel na odisseia humana.

Criar consciência a respeito da importância desse papel e de que é possível evoluir e impactar positivamente a realidade que nos cerca é o primeiro passo para perceber que as coisas não precisam permanecer do jeito que estão. Tudo em nossa história foi construído coletivamente e tudo é passível de ser modificado.

Imagine uma Terra em que não há guerra, não há fome, não há repressão ou intolerância. Imagine uma realidade em que todos têm as mesmas oportunidades de desenvolver seu intelecto. Pense num futuro em que o foco está no desenvolvimento do ser humano, um futuro no qual voltamos nossa mente questionadora e capacidade criativa para nosso potencial evolutivo.

Esse é o estado de harmonia e aprendizado que eu espero que nossa espécie alcance.

Como posso contribuir para esse futuro? Escrevendo. Essa é minha forma de fazer a roda da evolução girar, de contribuir para a construção do conhecimento coletivo e para o despertar da consciência individual.

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Earth is a paradise full of diversity, of cyclic movement, of beautiful landscapes and breathtaking sunsets. When seen from space, our homeplanet is a blue gem decorating the spacetime fabric of this solar system.

It is truly remarkable that in this vast (perhaps endless) universe, we have such an address.

When I say we, I refer to the human race. Modern humans are one of the many life forms that inhabit this place, but one that has prospered consistently throughout the geological ages and evolved to such an extent that it rules over the fate of most of other species.

You can go as far as to say that we are the absolute rulers of our backyard because of our unparalleled sense of self-awareness and awareness of our surroundings. Such a reflexive knowledge was acquired through the successive experiences of many generations.

In 2017, humanity is composed of more than seven billion people. This extraordinary number is distributed across the globe by geographical and social boundaries of all shapes and sizes. These lines, however helpful, sometimes blur the fact that whole planet is, in fact, our home.  We are not only compatriots of a specific nation; we are citizens of the Earth.

Even after all the ages of natural selection and social revolutions, we are still struggling to accept differences. We resist seeing ourselves as a part of a planetary unity. In fact, we are prone to regard our existence and development as separated from those of other species, as well as detached from the environment.

This limited perspective reveals itself in a number of selfish tendencies, which lead us to careless go through life ignoring our astonishing potential to transform this transitory home of ours into a better place. It materially prevents us from working towards the sustainable solutions that would take us safely into the future.

Hunger, war, torture, genocide, child labor, slavery, poverty, widespread pollution of oceans, land and atmosphere. These are all profound wounds generated by our lifestyles, byproducts of a cruel profit-driven global market that seeks its perpetuation regardless of the consequences.

But these maladies have always existed, you may argue. Every human group that has ever lived, has had its oppressors and its oppressed. Sparks of creativity and glory occur as often as peaks of violence and catastrophe. Atrocity is not exactly twenty-first century novelty. Instead, it has been written in our encyclopedia since the dawn of our time here.

Are corruption and war essential to our existence, as much as love and peace? Is there a permanent co-dependency between these antagonists or is this just a transitory stage filled with paradoxes that must be transposed? How do we evolve from here? How do we effectively leave behind these shadows as a butterfly leaves its cocoon?

We ought to grow out of these dilemmas before stepping into a new reality. We must, as our pre-historical ancestors have done before us, abandon the hunting-gathering prospect (whose contemporary equivalents are the reckless exploitation, pollution and exhaustion of natural resources) in favor of a shared state of well-being.

We now stand on social structures based on a exploitative and intrusive approach, but we’ll slowly walk towards an increasingly sustainable society. This will be the revolution of our lifetimes.

In a global phenomenon of collective effort, we and the next generations will face the challenge to step out of our protective shells in order to raise our conscience to a level of global healing.

If you think we have already gone too far in the destruction path, remember that we are problem-solvers. If there are multiple setbacks and difficulties, then there must be an equal amount of solutions and alternatives.

We haven’t been here for very long, yet we already accomplished some truly remarkable deeds. From the ability to communicate in different languages to the technology that allowed us to send robots and messages into uncharted space, one can see the rate with which our young civilization thrives.

If humanity is to have a future, such puzzles must be solved and the wounds mentioned before fully healed. Our homeplanet may not be as pristine as it was in its first days, but it still has an enormous potential to provide food and shelter for all of us if dealt with carefully and respectfully.

We are the agents of change. This is the role we must learn to recognize in order to take responsibility for our actions. This is how we’ll evolve into our better selves.

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Quando a câmera não existe, a vida segue rindo de si, desinibida, roliça sobre os sofás do mundo.

Movimentos começam e terminam sem o drama da representação. Há significado, mas ele é remoto, fora de alcance.

O ser humano é o elemento problematizador, por vezes cíclico, não raro crítico de suas ações. A lente é o instrumento de expressão, de defesa, de desbravamento do mistério que ele sente existir em seu interior.

O papel do observador é o de intruso, mas um intruso ingênuo de si mesmo, uma criança curiosa.

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you should know

No início, não entendi bem o que ela dizia.

Seus lábios moviam-se em câmera lenta e tudo estava fora de foco. O céu era claro demais, de um branco quase incômodo, e eu sentia náuseas, como se estivesse lendo dentro de um veículo em movimento.

Assim que comecei a captar os sons, passei a traduzi-los. Uma delas falava sobre o universo, enquanto a outra lutava para prender os cabelos com um elástico apertado demais.

A mulher que falava gesticulava animadamente, explicando que o universo conhecido só é possível porque as grandezas tempo e espaço existem de forma separada.

Todos nós existimos em algo que parece com um tecido, um tecido de espaço-tempo, dizia ela. Os corpos celestes estão inseridos nele. As torções nesse tecido são o resultado direto de uma explosão inicial (como as ondas se propagando na superfície de um lago a partir de um ponto de impacto central).

Chamamos esse evento de Big Bang. Big Bang é a expressão que descreve como um ponto de densidade inimaginavelmente alta explodiu, dando origem ao universo, que, por consequência, está em constante expansão.

Agora vem a parte interessante.

Nesse momento, ela baixou a voz e disse, em tom de confissão, que o Big Bang nada mais é do que um ponto em que tempo e espaço formaram uma grandeza única.

Sua interlocutora fez uma careta de quem não entendeu.

Fica difícil para o cérebro humano conseguir processar tempo e espaço unificados. É algo que extrapola nosso escopo de compreensão, e até de imaginação.

Aqui, adotou uma postura especulativa. Sombras de dúvida nublaram seu rosto.

Quando voltou a falar, parecia ter perdido um pouco da animação inicial. Basta saber que tal fenômeno é tão insustentável que resultou em uma explosão.

Ela tirou um papel da bolsa e mostrou à companheira, que parecia ter desistido, momentaneamente, do elástico.

O papel mostrava um gráfico, com as duas grandezas dispostas de forma perpendicular.

Havia um campo amarelo entre elas. Jéssica apontou para ele e disse que era o tecido no qual podemos existir. Por enquanto, ressaltou. Já sabemos que daqui alguns milhões de anos a expansão tornará a vida no universo uma impossibilidade.

Agora feche os olhos, ordenou bruscamente. Imagine que é possível reproduzir os traços e vetores repetidas vezes, formando um padrão geométrico infinito.

O fenômeno que conhecemos por Big Bang é cíclico. Isto quer dizer que a convergência dessas duas grandezas não foi um acontecimento único.

Não foi? Eu sempre ouvi falar de um só, questionou a outra.

Não. A convergência se repete. Estamos inseridos numa estrutura que se retroalimenta, saca?

Que maluquice, Jéssica.

Pois é.

Então elas se deitaram na grama, cruzaram as mãos sobre a barriga e passaram a encarar aquele céu estourado sem dizer mais uma palavra.

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She's the one

Somos seres limitados.

Nossa percepção nos obrigada a acreditar que o tempo é linear, claramente dividido em passado, presente e futuro. Nessa dinâmica, há uma sucessão natural de eventos; o trigo brota, cresce e seca.

Pular fora do determinismo dessa moldura é cair numa caixa de incertezas.

Imagine que transgredir, aqui, significa ignorar as sombras dançantes nas paredes da caverna e caminhar em direção à saída. Mas o que acontece quando você efetivamente chega nela? O que acontece quando você alcança o limite e o transpõe?

Seria lógico supor que seus olhos e seu cérebro, por não estarem habituados a tal nível de claridade, precisarão passar por um período de recalibragem.

A princípio, você não enxerga nada. A luz te deixa cego. Porém, depois de uma necessária adaptação, você começa a distinguir cores e formatos.

E você se acostuma com isso, com essa nova realidade que se descortina perante seus incrédulos olhos. Você se reinventa. Há um upgrade em sua configuração básica.

Você habita agora uma zona marginal, e o ponto onde você começou nada mais é do que uma referência, uma diminuta porta que já foi atravessada.

Esqueça a dinâmica linear e visualize a grandeza tempo como um campo de fluxo energético no qual estamos imersos e cuja existência e continuidade é impulsionada por movimento, por transformação.

Entenda que sua presença, sua história, suas ações são o combustível que mantêm essa engrenagem funcionando.

Não se pergunte o que veio antes e o que virá depois. Apensa siga em frente como Alice seguiu o coelho branco pela toca. Caia e descubra algum país das maravilhas.

 

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Foi  num sábado frio e chuvoso de um novembro igualmente frio e chuvoso que eu e Marisa embarcamos no trem das sete em direção a Weymouth, costa sul da Inglaterra. Nem consultamos a previsão do tempo antes de comprarmos os tickets. Isso porque estávamos empolgadas pra conhecer a famosa Jurassic Coast.

Assim que descemos na estação de Weymouth percebemos o engano: o vento era tão profissional que nossos guarda-chuvas estavam quebrados em questão de  minutos. A chuva, apesar de fraca e inconstante, foi bem sucedida o suficiente pra nos encharcar dos pés a cabeça.  Era quase hora do almoço quando chegamos, então decidimos dar uma volta na praia antes de ficarmos presas na calefação de um restaurante. A praia era pequena e de areia, o que foi um surpresa, pois a maioria das praias no sul da Inglaterra são de seixos.

Depois de uma hora explorando o lugar, decidimos visitar uma enseada que ficava perto, chamada Lulworth Cove. De volta ao trem, descemos em uma estação chamada Wool e pegamos um táxi até a enseada.

A chuva havia piorado e o vento tinha evoluído de profissional para expert. O motorista do táxi nos avisou que as trilhas estavam em péssimas condições e que, portanto, não deveríamos nem chegar perto. Falamos que ok, nossa intenção era apenas contornar a praia e não subir morros.

Já na orla marítima, fomos surpreendidas por uma grande quantidade de pessoas usando um tipo de uniforme camuflado, carregando caixas e falando em walkie-talkies. A praia estava bloqueada, alguém até mencionou que esperavam "uma entrega". Desanimamos.

Foi então que vimos o começo da trilha. Não parecia tão ameaçadora, um pouco enlameada talvez, mas bastante convidativa, pois desembocava na outra ponta da enseada. Quando começamos a subir chegamos a conclusão de que o taxista estava correto, a tilha estava escorregadia demais e a cada metro víamos montinhos de dog poop.

Fazer trilha no meio de chuva, vento e lama,  carregando duas câmeras analógicas enquanto você tenta protegê-las com um guarda-chuva quebrado não é algo que eu recomende.

Ouvimos um helicóptero sobrevoando o local. Achamos estranho e seguimos em frente. O estoque de pensamentos positivos estava se esgotando, mas quando finalmente atingimos o topo do morro, suspiramos felizes e começamos a descer.

Havia uma grande extensão de terra bloqueada por cerca de arame e por avisos que diziam se tratar de uma área militar. Ao avistarmos a praia, notamos que a aglomeração de pessoas uniformizadas ainda estava lá e que, além do helicóptero, havia barcos e lanchas indo em direção à praia. Embora o relógio marcasse 3 pm, o inverno inglês transformava tudo em penumbra.

Pois bem, retornamos ao centro de Lulworth Cove. Cansadas, congeladas e famintas entramos no pub e pedimos alguma comida. O lugar estava lotado, o que só aumentou a improbabilidade da situação: outras pessoas – mais sabidas das intempéries meteorológicas do que nós –  têm atividades mais interessantes pra fazer do que visitar aquele meio do nada no inverno, não? À medida que fomos secando e relaxando, começamos a especular sobre a presença do exército. Chegamos a conclusão de que se tratava de um treinamento.

Na volta para a estação, perguntamos ao motorista do táxi o que o exército estava fazendo lá. A resposta foi:

“Não é o exército, é o Brad Pitt que está aí! Ele está gravando um filme sobre guerra ali na praia”

Oh.

Eu já tinha visto o trailer do Guerra Mundial Z, inclusive achei que o filme já estivesse pronto.  Perguntei se ele tinha certeza e ele disse que sim, por isso tantos seguranças e aquele helicóptero.

De volta em Londres, no domingo, resolvi pesquisar. Era tudo verdade. Então nós estávamos no mesmo lugar, ao mesmo tempo, e só não esbarramos no bonitinho porque confundimos a equipe de filmagem com o exército. Até então o mundo era um lugar onde coincidências desse tipo  aconteciam com outras pessoas.

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Certo dia, no metrô, reparei que meu vizinho de banco carregava um tablet.  O brilho colorido da tela instantaneamente me ganhou e eu passei a observar o que ele estava fazendo. A princípio, fiquei impressionada com a quantidade de jogos disponíveis: jogos de carta, de memória, de dominó, de palavras, de encaixar pecinhas, de explodir pecinhas, enfim, uma infinidade de opções. Notei, entretanto, que o dono do dispositivo nunca completava um jogo; escolhia um por dois ou três minutos e depois simplesmente o deixava de lado pra começar outro. Aquela dinâmica me deixou confusa e - passados dez minutos - precisei fechar os olhos para ignorá-la.

Fiquei imaginando se o ato da leitura em um desses aparelhos segue a mesma lógica. Você está lendo um capítulo e, de repente, se sente tentado a mudar de autor ou de livro, ou a dar uma espiadela na notícia que acabou de ser publicada. Me pergunto, então, se por ser tudo tão fácil e rápido, aquele comprometimento que vem de um contato físico, de uma escolha previamente pensada e planejada não acaba desaparecendo. A lógica seria pensar que a multiplicidade de opções leva a um sentimento de satisfação e até e estabilidade, na prática, porém, a dinâmica não funciona desse jeito. Esse contínuo fluxo de ofertas acaba cortando a corda mágica do interesse, afinal de contas de nada vale carregar quinhentos livros se você não consegue se concentrar em nenhum.

Acredito que isso faça parte de um fenômeno de escala global que caminha e amadurece paralelamente à geração século 21. Penso nele como um fracionamento da nossa existência diária, um despedaçar das nossas palavras e atitudes, uma série de desdobramentos e curvas pelas quais passamos e nas quais é tão fácil se perder. Esse fracionamento é o modo como nós muitas vezes dividimos nossos atos em pedacinhos desfocados, em possibilidades mudas, em palavras sem significado. É também a facilidade com que deixamos algo por terminar e a relutância com que nos entregamos às nossas escolhas, ao sim ou ao não definitivo, preferindo flutuar no mar do talvez. É, acima de tudo, a dificuldade de achar um foco.

Acredito que o compartilhamento descontrolado em redes sociais de todo e qualquer evento, imagem e pensamento também esteja ligado a esse fenômeno.  Somos a platéia de um palco que exibe atrações tão transitórias que não se deixam ser absorvidas, quiçá admiradas ou refutadas, e sobre nós rege um impulso, uma vontade (que se acredita) despretensiosa de fazer parte ou de ser alguém diante da enxurrada de informações que nos é apresentada, mesmo que através dela naveguemos cegamente.

Fica difícil entender quando esse fracionamento teve início. Na verdade, fica difícil e talvez seja irrelevante. É possível que esse padrão de comportamento seja uma reação natural à realidade que nos cerca e com a qual nós – mesmo que de forma relutante ­ – nos cercamos, alimentando seu ritmo super acelerado na tentativa de evitar atropelamentos. O fato é que, se torna cada vez mais difícil absorver o que nos é servido de uma forma que leve a questionamentos mais profundos. Em outras palavras, encontrar um caminho sólido no meio de tantas sombras fugidias requer  reflexão, esforço e perseverança.