running around

No alto da trilha, o destino vadiava. A poeira seca e sufocante que se expandia a partir do atrito de nós dois impedia nossos passos, ainda que urgentes.

Fingia ser rocha, sólida, imponente, pedaço de planeta, mas era só poeira mesmo, só migalhas, decomposição do que outrora pulsava.

mar 

Aos poucos, o parque ia ficando deserto. Algo realmente inusitado para aquela hora do dia.

Centenas se dirigiam, apressadas, às saídas. Todos cabisbaixos, em um transe mediúnico. Algumas crianças corriam como galinhas assustadas, enquanto outras se arremessavam ao chão, prostradas, certamente por não saberem lidar com aquela agitação de manada que acometera seus adultos.

Não entendi porque toda a gente decidiu deixar o parque ao mesmo tempo, mas também não suspeitei de nada.

Quando cheguei ao lago maior, que era meu objetivo inicial, vi um garoto parado na margem com uma bandeirinha de plástico vermelho nas mãos.

Perguntei se ele estava bem. Ele disse que sim e apontou para um ponto qualquer na água.
O lago estava calmo e sujo como sempre esteve. Tudo ia bem.

Exceto pela ausência dos patos. E dos cisnes. Dos pelicanos. E até das pombas.

Perguntei ao garoto sobre a debandada. Ele voltou a apontar para a água.

Avisei que tudo bem. Que ele já podia parar de apontar.

Imaginei que devesse ter perdido a bola no lago, ou coisa parecida. Eu também vivia perdendo coisas quando era moleque, pensei. Só que nunca num lago, ou num parque.

Decidi então que minha boa ação do dia seria buscar a bola perdida do garoto. Ou o que quer que fosse. Sentei no chão de concreto úmido, desamarrei os cadarços e dobrei a barra da calça, deixando as canelas expostas.

Algo em mim transbordava e eu já nem lembrava dos patos.

Dei o primeiro passo e meus pés não afundaram, como era de costume. Uma após a outra, as solas endurecidas apenas tocavam a superfície sem submergir, criando ondas de impacto tão minúsculas que logo se dissipavam.

Cheguei ao ponto central e olhei meu arredor. Respirei aliviado. A não ser pelo garoto, o lugar agora estava completamente vazio.

Da margem, o tratante me observava sem cerimônia. Tinha o queixo apoiado na mão direita e o outro braço esparramado sobre a cerca. Não havia qualquer indício de perplexidade em seu semblante. Imaginei que provavelmente soubesse caminhar sobre a água também. Afinal, não era uma habilidade assim tão rara.

De qualquer forma, seu desprendimento roubou um pouco de minha boa vontade inicial.

A superfície da água era turva, mas eu conseguia ver toda sorte de objetos perdidos; espadas, pentes, um dente de leite e até um par de óculos 3D. Nenhum daqueles itens, porém, era o que eu precisava. Durante algum tempo, só me deparei com alarmes falsos.

A tarde já ia adiantada quando o relógio começou a emergir. Era um simples e antigo relógio de bolso; grande demais para uma criança, grande demais  para um adulto. Quem o criara devia ter suas próprias ideias sobre proporções humanas.

Seus mecanismos eram bonitos de se observar, apesar de estarem todos petrificados. Virei para o garoto, erguendo-o. Ele respondeu com um gesto claro. Queria que eu desse corda no aparelho, o que fiz sem titubear.

O relógio tossiu pra vida e seus ponteiros se posicionaram, marcando três minutos pra meia-noite.

Nesse instante, o lago se transformou em um espelho perfeitamente plano, refletindo um céu crepuscular sem estrelas. Depois, imagens desconexas foram se sobrepondo em ritmo de epopeia na superfície.

Havia descobertas, guerras, rituais e grandes aeronaves seguidas por um campo de trigo a perder de vista. Havia gente brigando, brincando, gemendo, chorando, cuspindo e se afogando no próprio silêncio. Havia gritos, gargalhadas e dor.

De repente, o relógio marcou meia-noite.

E então tudo virou deserto. O que até então existira foi obrigado a ceder lugar a uma crosta árida e homogênea que se estendia por léguas sem fim. O ar, já rarefeito, era aos poucos substituído por uma discreta melancolia.

Não sabendo o que esperar daquele vácuo existencial, adiantei os ponteiros do insólito aparelho para a primeira hora, minuto vigésimo-quinto.

O deserto virou mar, um mar revolto, ansioso, desnorteado como um urso arrancado da hibernação.

Vi o garoto da margem uma última vez e joguei o relógio de volta para ele. Ele o guardou no bolso da bermuda e saiu caminhando até ser engolido sem cerimônia pela fúria daquela sopa primordial.

Eu fiquei ali, sentado nas ondas da primeira tormenta, sentindo os pingos de chuva molharem meu rosto. Sonhava com parques, imaginava estranhas formas de vida e sussurrava seus possíveis nomes, sorrindo vez por outra e antecipando as transformações daquele novo ciclo.

5

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Caminho pelos emaranhados becos da antiquíssima cidade, que repousa adormecida sob o manto da madrugada. Tenho a sensação de ouvi-la inspirar e expirar ritmicamente; um movimento de pulmões imaginários que finjo acompanhar. Inalo com prazer seu ar puro, fresco e cítrico, já rarefeito em outras partes deste mundo.

Cidade da lua (e sítio das fragrâncias), era como costumava ser chamada por caravanas que negociavam aqui em dias esquecidos. De fato, o perfume que o lugar exala à noite provoca uma espécie de dormência nos sentidos, um relaxamento profundo e contemplativo perante o tecido no qual a vida é costurada.

Sob minha pele, uma estarrecedora sensação de familiaridade se alastra. Somos tangentes: eu, a cidade e o rio de tempo que nela corre.

Sigo mais rapidamente pela avenida que leva à saída sul e logo vejo os dois imensos blocos de rocha empilhados casualmente, cercados por ervas daninhas. Como eles foram parar ali, ninguém sabe, ninguém se importa. São como duas almas petrificadas, presas num ritual de celebração.

Ao tocá-los, minha percepção da realidade esbarra num outro cenário: de repente, é dia na cidade das fragrâncias noturnas. Alguns homens vestidos em túnicas coloridas e ricamente decoradas conversam e circulam por uma espécie de feira.

Todo o lugar parece cintilar sob a luz de um sol horizontal, inclusive os animais de carga, enormes bestas amareladas que, ruminando, ditam a rotina das barganhas que ali se desenrolam. Os transeuntes gesticulam animadamente e conversam em um idioma que espirala numa sequência de notas agudas, cujo ritmo acelerado eu desconheço.

A cidade que vejo agora é cercada por uma muralha dupla, construída com enormes blocos retangulares de uma pedra esbranquiçada, dilapidados e encaixados com maestria. A construção da muralha pertence a um tempo bastante remoto e nebuloso; consigo apenas observar os momentos que precedem sua ruína e o destino das partes remanescentes, a janela pela qual penetrei neste plano.

Entenda que minha presença aqui não se trata de uma via de mão dupla, mas de uma membrana plástica e espelhada que há muito tateio sem pensar nas consequências. O que vejo são apenas projeções de um ciclo que já expirou, lembranças presas a lugares e objetos inanimados, vestígios anônimos e orgânicos que aguardam serem redescobertos e experimentados.

Aos poucos, permito que a miragem se dissipe e volto ao ponto de partida. O céu já amanheceu em Jericó e um grupo de idosos turistas acompanha atento as explicações de seu guia sobre a história local.

Em momentos como este, passado e presente são como as ondulações na superfície de um oceano. E eu? Pronuncio uma prece ao tempo, enfio as mãos nos bolsos da jaqueta e saio caminhando pelas ruelas da cidade novamente, acompanhada pelo som do atrito entre meus passos e os pedregulhos do caminho.

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A tarde se arrastava gelada nas montanhas Hindu Kush, sul da província de Baghlan. Um vento gelado perturbava a crosta de poeira avermelhada que cobria o solo semiárido da região, formando padrões espiralados para em seguida dispersá-los.

Na saída da vila Nayi-e-Khomri, mais de cem homens reuniam-se para assistir a luta de cães, esporte não-oficial que havia sido reprimido pelo Taliban, mas que aos poucos voltara a ser praticado em todo território afegão, especialmente nos meses de inverno.

Os cães eram, em sua maioria, enormes e pesados kuchis ou cães pastores, e alguns valiam tanto quanto um carro. Os animais nunca lutavam até a morte e o confronto, embora violento e sem dúvida excitante para quem o assistia, durava até que um dos adversários fosse subjugado.

Aquele era um lugar de paradoxos.

Aylen patrulhava as ruas com mais seis combatentes, todas do TOSC. Duas delas estariam em casa em menos de um mês e Teena, a mais jovem, declarava que quando pisasse em solo americano gastaria sua bonificação inteira em um spa.

Apesar do frio e do pesado armamento que cada uma carregava, o tom animado da conversa fazia com que elas caminhassem distraídas por entre as esparsas habitações. Aylen, entretanto, sentia uma crescente nuvem de angústia tomar conta de seus pensamentos.

É só o vazio deste lugar, só o vazio. Tudo está certo. Repetiu o mantra algumas vezes, controlando a respiração e acompanhando, agora silenciosa, a conversa do grupo.

Logo encontraram quatro crianças afegãs que brincavam com um cachorro manco, cuja pele amarronzada parecia ter sido esticada ao máximo na tentativa de cobrir seu corpo quadrúpede.

As combatentes se aproximaram e puxaram conversa, oferecendo-lhes um punhado de doces coloridos. Doces coloridos eram recursos essenciais para qualquer membro do TOSC. A estratégia nunca funcionara, mas elas continuavam enchendo os bolsos ao deixar a base.

O cão, por sua vez, aproveitou a distração coletiva para mancar até o muro mais próximo e se deitar. Aylen, que acompanhava seus movimentos, notou que ele não tinha a orelha esquerda e que da direita sobrara apenas um toco de contorno irregular.

Perguntou, para ninguém em particular, se o cachorro tinha nome.

O garoto mais alto do grupo respondeu, ágil em seu dialeto, que era só um velho cachorro de briga.

Velho e aposentado, Alyen completou.

Lembrou-se então do romance O velho e o mar, de Ernest Hemingway, e decidiu nomear o animal como Santiago. O embate entre a resiliência desesperada do velho e a força indiferente da natureza, cuidadosamente descrito pelo autor, parecia corresponder à existência daquele animal.

Aylen se ajoelhou ao lado de Santiago, que levantou a cabeça em reconhecimento à proximidade, e deixou que ele cheirasse sua mão. Só então acariciou a pele retesada do pescoço, perguntando em voz baixa:

“Santiago, você gostaria de comer um enorme peixe suculento e recém-pescado no oceano?”

Santiago pareceu relaxar, fechando os olhos e esticando o corpo.

O ataque veio, feroz, neste momento.

Um enorme cão pastor atacara Santiago. De qual direção o monstro surgiu, Aylen não saberia dizer.

Após o choque inicial, instintivamente ela tentou tirá-lo de cima de Santiago, que gania e buscava, sem sucesso, revidar o ataque.  Agarrá-lo, no entanto, provou-se impossível, pois o cão não usava coleira e se movia com uma brutalidade extrema.

Tentando controlar os movimentos bruscos da besta, Aylen se desequilibrou e caiu. Só então se deu conta das vozes das outras combatentes. Elas tentavam lhe dizer alguma coisa, mas ela não tinha tempo. Tudo o que conseguia pensar era que a cada segundo Santiago ficava mais ferido.

Sentiu então alguém segurá-la e afastá-la da briga. Reconheceu Fanny, a líder do grupo, que pareceu gritar algum tipo de ordem.  Teena, então, atirou cinco vezes.

“Não mate, Santiago! Não mate ele!”

Era tarde.  Ambos os cachorros jaziam ensanguentados no mesmo chão indiferente.

Conseguiu se desvencilhar e ajoelhar-se novamente ao lado de Santiago, que arfava. Havia sangue por toda parte. Aylen começou a chorar enquanto examinava os ferimentos do animal prostrado a sua frente. Conjurou todas as forças para conter a emoção, mas as lágrimas rompiam tal qual rio represado que retoma seu curso natural.

Santiago não fora atingido pelos tiros de Teena, mas sua lombar e pelve estavam definitivamente quebradas. Além disso, havia uma imensa brecha em sua traqueia e severos cortes pelo corpo todo.  Removê-lo seria o mesmo que matá-lo.

Ouviu então vozes alteradas e foi forçada a tomar consciência do que acontecia ao seu redor. Fanny discutia com tajiques armados  enquanto o resto do Time se posicionava defensivamente e pedia reforço pelos walkies.

Fanny tentava dizer que o kuchi havia atacado uma combatente, sendo abatido por esse motivo. O homem não parecia interessado no argumento, revidando agressivamente e demandando uma compensação imediata pelo prejuízo. Se a situação atingisse um ponto sem volta, a chance de saírem vivas dali era mínima, pois para cada uma delas havia, no mínimo, dez homens, a maioria armada.

Sentia o medo das companheiras e a fúria de Teena e Johanne. Esses sentimentos não são meus, pensou, mas não conseguia evitar ser bombardeada por eles.  A confusão emocional mesclava-se à tensão que pairava no ar e ao gosto amargo que experimentava ao engolir a saliva.

A discussão continuava. Agora Fanny tentava dizer que o dono do cão pastor seria ressarcido pelo exército americano.

O ritmo dos batimentos cardíacos de Santiago estava diminuindo. Aylen não conseguiu lembrar-se de nenhuma prece específica para momentos conturbados e desesperadores, então disse apenas:

“Santiago, aonde quer que você vá, esteja em paz.”

Limpou as lágrimas com o lenço que cobria seus cabelos, levantou e posicionou-se ao lado de Teena.

“Se eu morrer aqui por causa de um vira-latas sarnento, Aylen, eu juro, juro que volto pra te assombrar. Espero que você saiba disso.”

Ela não respondeu, apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça.

Em menos de cinco minutos, a infantaria chegou em jipes e comboios camuflados, dispersando a multidão de tajiques. A negociação ainda continuou por algum tempo. Aylen não conseguiu acompanhar todas as ameaças que foram trocadas, pois começou lentamente a sentir as mordidas e arranhões.

A intensidade da dor que emanava de seus braços foi aumentando até que ela perdeu a consciência. Quando acordou, já estava na enfermaria, com os ferimentos limpos e cobertos por gazes.

No dia seguinte, Fanny avisou que descrevera minuciosamente sua imprudência e insubordinação no relatório que entregara aos superiores. Uma investigação estava sendo conduzida com as testemunhas. Aylen teria uma chance de se defender em uma audiência, assim que fosse liberada.

Ok.

“Aylen, o que aconteceu contigo ontem, mulher? Nunca te vi agir daquele jeito. O jeito que tu se debatia por causa daquele cachorro, parecia que tava possuída...”

“Eu não lembro direito...”

“Acho melhor inventar uma desculpa esfarrapada melhor do que essa, se não vão comer teu fígado naquela audiência.”

Como não obteve resposta, Fanny continuou falando:

“... tu colocou a vida de todo mundo em risco. A Johanne tá querendo te dar um pescoção. Eu tentei convencer ela a te deixar em paz e esperar a audiência, mas não sei se funcionou.”

“Sempre houve risco.”

“Não daquele jeito, porra.”

“Não daquele jeito.” Aylen repetiu. “Mas foi tudo tão rápido...”

“A Teena também fez um relatório.”

“É? E o que ela escreveu nele?”

“Que te viu falando com o vira-latas e que tu queria trazer ele de volta pra base. Virou piada, é claro. Mas eu tô te dizendo, Aylen, é melhor negar isso tudo. ”

“E se eu não negar, o que vão fazer? Me mandar pro Iraque?”

Ambas deram risadas.

Ao deixar o quarto, Fanny ouviu a voz de Aylen.

“O nome dele era Santiago.”

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A colcha era preta, pesada e cheirava a roupa guardada, um cheiro de infância, de sol, de verão. Aquele momento, porém, não era verão nem infância. Em menos de vinte e quatro horas, ela estaria trocando o quarto claustrofóbico e protetor por um mundo arisco e raquítico, dissecado pelo desespero, sedento de vida.

Trêmula. Suas credenciais eram erráticas. Sua pontaria era sempre muito boa ou muito ruim e, por isso, estava acostumada a ser alocada em operações de suporte e vigilância.

Uma série de pequenos fracassos e tropeços a fizeram desembocar na carreira militar. Agora, insegurança e um quê de desinteresse na própria vida a conduziam complacente ao distante Oriente, o terrível Oriente, o explosivo e traiçoeiro Oriente.

No Afeganistão, ela seria mais um membro do experimental Time de Ocupação e Suporte Cultural.

Ainda era madrugada em solo americano e Aylen, agarrada à velha colcha na qual inúmeros retalhos desbotados interligavam-se por uma costura gasta e irregular, tentava controlar seus pensamentos, focando-os na esquisita estampa da coberta.

Todos os retalhos tinham único tema: árvores tropicais.  Palmeiras que, balançando-se desinteressadas e verdes, destoavam do tecido grosseiro e faziam Aylen recordar um momento qualquer de sua existência, uma lembrança feliz e perdida no tempo. O cenário era tenro e ela tomava drinques em uma ilha do Atlântico, o mais simpático dos oceanos.

Sentia-se tão segura ali que, ao fechar os olhos, podia visualizar as palmeiras crescendo nas ruas de Seattle, no deserto, no asfalto, naquela ilha paradisíaca onde tambores ressoavam a melodia que brotava da terra.

Até que o ritmo agradável da percussão transformou-se no apito agudo de seu despertador.

No aeroporto, nem lágrima, nem abraço,  nem sequer uma benção amiga e protetora. Apenas "Aylen, nove meses passam voando. Cuide-se!", e a palavra Yale bordada nas costas do moletom de seu irmão.

Enjoou durante o voo de Seattle à Nova Iorque, e de Nova Iorque a Tel Aviv. Já o voo até Cabul passou despercebido. Na base militar francesa de Nejrab, teve que assistir a uma palestra introdutória sem bocejar, sem dormir, sem piscar, sem absorver coisa alguma.

Comparado com aquilo, comunicar-se com mulheres afegãs sem falar a mesma língua seria como abrir um presente de natal.

Em seu primeiro mês, sentia que o calor estava em toda parte. Até a base, com seus modernos sistema de ventilação e umidificadores, não conseguia dissolver a sensação. A luz homogênea dava a impressão de que o sol estava sempre no zênite, deixando-a sob um constante estado de torpor.

Mantinha apenas conversas superficiais com as duas combatentes com quem realizava as patrulhas, Sandra e Sherryl, ambas de Illinois. As poucas tentativas de uma aproximação mais profunda haviam fracassado logo nos primeiros dias.

Não estava ali para estabelecer laços de amizade com seus conterrâneos, e sim para tentar entender a população local e documentar as demandas das mulheres e das crianças, figuras enigmáticas de uma cultura inacessível.

A chave, disse a terceira comandante Jacqueline, é se comunicar. Não importa se você precisa apontar um rifle para cabeça de alguma burca, afirmou ela, desde que a desgraçada entenda sua mensagem. Na ocasião, todos soltaram uma risada desconfortável.

Os Times não tinham um propósito claro. Todas as combatentes foram instruídas a desempenhar tarefas como patrulhar ruas, estabelecer contatos, monitorar os cidadãos e ensinar o modus operandi americano às crianças. Ninguém sabia dizer, entretanto, o que seria feito com o material coletado, quais eram os resultados almejados e como isso ajudaria a melhorar a vida dos locais.

O que se sabia era que um projeto milionário de empoderamento das mulheres havia incentivado exércitos a enviarem tropas femininas ao campo.  A frente de batalha havia, até então, sido exclusivamente ocupada por homens, com uma óbvia desvantagem: os soldados não podiam conversar com as mulheres afegãs.

Aylen tentava não pensar nos desdobramentos políticos de sua decisão. Como todos os outros movimentos em sua vida, ela apenas agarrava o queijo enquanto deixava a ratoeira seguir seu curso.

Numa manhã de Abril, apoiada num muro decrépito da cidade velha, mastigava uma barra de snickers quando ouviu uma explosão e tiros a sua direita. Imediatamente, doses familiares de adrenalina se espalharam por sua corrente sanguínea e ela empunhou a Beretta M9, liberando a trava de segurança com agilidade. Soldados de uma UE forçavam a entrada naquela vizinhança de civis a procura de insurgentes.

Atiradores posicionavam-se em pontos estratégicos, enquanto a unidade principal questionava os moradores. Algumas galinhas e cachorros magricelas corriam assustados. Ao se aproximar do local, Aylen reconheceu o oficial que parecia estar no comando da ação, apesar de não  recordar seu nome.

Nesse momento, Sherryl aparece ao seu lado com a respiração ofegante, perguntando o que havia acontecido. Aylen explica a situação enquanto um dos soldados grita com um grupo de mulheres para que se ajoelhassem. Algumas delas pareciam gritar xingamentos, enquanto outras rezavam. Ninguém se ajoelhava.

A confusão de vozes se misturava ao latido dos cães. Aylen havia aprendido algumas frases em dari, porém estava longe de ser fluente. Sherryl tinha mais facilidade com o idioma, mas parecia estar entorpecida.

De repente, Aylen vê o garoto envolto em uma túnica xadrez, encolhido ao lado de uma casa. Sabia que a maioria dos meninos daquela vila frequentava a escola e falava sua língua melhor do que ela um dia falaria a deles. Seguindo essa linha de raciocínio, ela se aproxima e pergunta seu nome.

Raja.

Raja, preciso da sua ajuda. Você me entende?

Ele diz que sim. Ela então o conduz até o grupo de mulheres, todas cobertas por burcas pretas. O soldado tem o rifle apontado para a  cabeça de uma delas.

O garoto pode traduzir. Diz ao soldado.

Ele a encara por um minuto. Quando fala, as palavras vertem dobradas por um sotaque inconfundível:

Então traduz, garoto. Traduz que se esses urubus não se ajoelharem e fecharem a porra da matraca, vão acabar que nem aquele lá. Apontou delicadamente o rifle pra um corpo inerte há três casas de distância e disparou.

As mulheres começaram a jogar os braços para cima, despejando uma enxurrada de palavras rápidas e afiadas. Aylen beliscou o braço do garoto e ordenou que ele dissesse que ficassem quietas.

Surpreendentemente, a voz do garoto soou como um comando e foi prontamente obedecida.

Diga que isso vai acabar logo.

Antes mesmo que Raja pudesse passar a ordem adiante, algumas mulheres do grupo a encararam. Um arrepio percorreu sua nuca e Aylen sentiu aquelas mulheres. Sentiu sua repulsa, seu medo, sua confusão. Havia ali um ódio  que escalava.

Sem saber como, tomou consciência  de que dentro de uma das casas mais próximas havia algo precioso. Algo que o grupo tentava proteger.

Falou então para se acalmarem. Falou que nada aconteceria. Confiem, pensou. Por favor, confiem e fiquem quietas.

Devagar, guardou a Beretta no colete e caminhou até um das portas de madeira, empurrando-a. Dentro do minúsculo recinto, havia uma adolescente de longos cabelos  pretos segurando um pano ensanguentado.

Ao vê-la, a garota grita e vai em direção à porta. Se os soldados a vissem daquele jeito, sua vida estaria acabada.

Aylen consegue agarrá-la a tempo e tapar sua boca. A garota começa a soluçar.

Alguns minutos se passam. Alyen mentaliza apenas fique quieta, fique quieta, fique quieta... calma, calma, calma. Não sabia se projetava isso pra garota ou pra si mesma.

Em um dari desengonçado, tenta perguntar se há alguma coberta no local, algo que possa servir para tapar seus cabelos. A garota nada diz e continua choramingando.  Segurando firmemente seu braço, Aylen anda pela casa a procura de alguma vestimenta que possa servir.

Em um momento de distração, a garota, que se chama Tulin, consegue se soltar e corre em direção a um minúsculo cômodo que contém o que parece ser uma cama. Ela desenterra um tecido azul e diz alguma coisa que Aylen não compreende.

O pano não era uma burca, mas uma espécie de túnica. Aylen ajuda a garota a se tapar e a conduz para fora da casa, segurando seu braço.

Fique perto de mim. A garota parece entender o comando.

As outras mulheres assistem as duas se aproximarem. Ondas de perplexidade e desaprovação emanam do grupo. Sherryl, que já respira melhor, também a observa desconfiada.

Aylen entrega a garota e se posiciona em frente ao grupo, guardando-o.

Aos poucos, os níveis de adrenalina baixam e ela tenta controlar sua respiração, agora ofegante. Sente-se drenada de todas as forças, mas  sabe que o perigo ainda existe.

Logo ela e Sherryl recebem a ordem de encaminhar o grupo, e todas as outras mulheres e crianças que encontrassem pelo caminho, para o centro de saúde que ficava na entrada do vilarejo.

A operação dura até o anoitecer. Nada é encontrado e a EU deixa o local.

Algumas combatentes chegam ao centro para ajudar na coleta de depoimentos sobre os acontecimentos daquela tarde. Aylen é substituída e recebe permissão para retornar à base.

Ao deixar o lugar, sente vários pares de olhos acompanhando seus movimentos. Alguns pareciam amaldiçoar sua presença, enquanto outros  emitiam preces silenciosas. No estado de esgotamento físico e emocional em que  se encontrava, Aylen achou difícil distinguir a benção da maldição. Resolveu aceitar ambos.

Naquela noite, dormiria profundamente e sonharia com palmeiras se balançando no deserto.

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O monumento estava encoberto por manchas e cores cuja combinação parecia ter sido projetada para desagradar qualquer eventual observador. Do formato original, pouco se podia adivinhar, pois uma quantidade exorbitante de lixo mesclava-se às extremidades da obra e impedia a identificação imediata de seu contorno. Haviam lhe informado, entretanto, que o monumento era um marco remanescente da longa e sofrida pré-história humana, uma era sombria na qual o ato da existência fora constantemente confundido com sofrimento.

Para Loni, a informação não fazia a menor diferença.

Tudo o que precisava conhecer era a particularidade da encomenda. Pelos próximos três meses, seu trabalho consistiria em esfregar cada centímetro daquela imundice até que o monumento fosse restaurado. Loni não tivera escolha, mas nenhum dos detentos verdadeiramente a possuía. Segundo a assistente individual, assim que o serviço estivesse completo seu esforço seria recompensado. Caso não completasse, passariam a encomenda adiante.

Nesse momento, a poesia será feita por todos.

O trabalho teve início em junho. Loni sentia sua pele ferver sob o efeito da radiação amarelada que preenchia aquela parte da cidade, conferindo-lhe uma iluminação mórbida e estourada. Não havia um segurança sequer para garantir que ele executasse o trabalho, mas Loni não sentia vontade de fazer qualquer outra coisa que não o que lhe fora designado. Todo pensamento que contrariasse os métodos ortodoxos estava devidamente desenraizado.

A primeira etapa do serviço consistia em limpar o lixo que contornava o monumento. Apesar de intenso, o exercício provou-se possível e a atividade progrediu conforme o cronograma estabelecido. Loni levara duas semanas para eliminar, manualmente, o entulho e agora passaria à limpeza das pichações.

Descobrira que o formato do monumento era o de um quadrúpede atarracado; ao observá-lo, não experimentou simpatia ou aversão, apenas sentiu seu cérebro imaginar o animal em vida. Era algo realmente desconcertante vê-lo correndo em uma pradaria.

Ao contrário da atividade anterior, limpar a tinta entranhada na pedra requeria uma técnica específica e um quê de perseverança. Além disso, cada tonalidade parecia agarrar-se à pedra com o desespero com que um animal encurralado revida um ataque.  Era quase como se as pichações fizessem parte do monumento, demandando o reconhecimento de sua presença, e não aceitassem desaparecer de jeito nenhum.

De repente, você está no deserto do jeito que está na noite, o que não for deserto, não mais existe.

Por vezes, Loni parava de esfregar e observava aqueles ideogramas quase inteligíveis. Certamente quem imprimiu aqueles símbolos tinha a intenção de comunicar algo a alguém. As possibilidades eram muitas. Nesses momentos de contemplação, sentia crescer dentro de si uma vontade visceral de compreender os rabiscos e os seres humanos que os haviam produzido. Experimentava uma curiosidade infantil, um desejo de agarrar esse algo intangível, uma nuance abstrata, uma linha de pensamento, de ação.

A habilidade de sentir os objetos, de comungar com eles, de ser eles por um momento...

As pichações resistiam teimosas como uma visita que não sabe a hora de partir.  Quando conseguia progredir com a limpeza de um trecho e tomava distância para melhor observar sua evolução, Loni visualizava os traços do que acabara de apagar voltando a tomar forma. Além disso, tinha a impressão de que, durante sua ausência, a tinta regressava sorrateira às partes que já estavam limpas.  Era como se o monumento fosse memória viva, absorta na constante leitura de si mesmo. Não toleraria violações.

Qualquer outro ser humano sentiria uma angústia profunda, uma desesperança cancerígena que, somando-se aos dedos carcomidos, seria suficiente para provocar uma desistência. Tais oscilações, no entanto, não atormentavam Loni. O que acontecia com ele era exatamente o oposto: experimentava uma satisfação profunda ao constatar que, no dia seguinte, os ideogramas ainda estavam lá.

Mono-no-aware

Loni prosseguia limpando, mas algo havia mudado em sua natureza básica: passara a sonhar. Sempre que dormia, sonhava. E, quando sonhava, confundia tudo o que havia feito durante o dia: enxergava-se pichando o monumento ao invés de limpá-lo. Acordava estranhamente excitado com essa inversão de lógica, grunhindo como se estivesse com dor.

Uma barreia a atravessar ou uma estrada a seguir?

Faltavam três dias e meio para o prazo acabar quando Loni terminou de esfregar para inexistência os últimos símbolos. Afastou-se do monumento, como estava acostumado a fazer, e permaneceu uma fração de tempo observando-o. Sentiu, então, a melancolia do que havia feito alongar-se por todo corpo, como um animal finalmente despertando de um prolongado sono.

Loni vacilou, estava zonzo e seu estômago queimava. O monumento jazia a sua frente como que despido de sua individualidade. Nu, dissecado, raquítico.

Quem disse que o tempo cura feridas? Seria melhor dizer que o tempo cura tudo, exceto feridas.

Ouviu passos rápidos se aproximando.

“Fui notificada sobre o término de suas atividades. Você confirma o status da encomenda?”

“Não confirmo nada.”

Compreendo, disse ela.

Assim que a assistente saiu de seu campo de visão, Loni deixou-se envolver pelo impulso de redesenhar com as próprias mãos tudo o que não mais existia, tudo o que recordava das formas e cores que apagara. Talvez pudesse também criar algo que seria confundido com os rabiscos de outrora, algo de seu. A melancolia deu lugar a uma necessidade de expressar tudo o que já havia sido expresso antes, tudo o que estivera ali antes dele chegar.

Aproximou-se do monumento. Começou com pequenos riscos e logo compunha detalhes de forma apressada, porém precisa, seguindo padrões que estavam vívidos em sua mente, as lembranças que o haviam marcado com ferro em brasa. Naquele momento, tornara-se um escravo de uma vontade alheia a sua, mas que, aos poucos, o contaminara.

Desenhando na pedra, Loni tomava consciência das paixões humanas, da enxurrada de tempo, das curvas da memória coletiva e dos monstros abissais que haviam corrido soltos nos primeiros dias do mundo.

Ele abarcara no próprio corpo as infinitas lembranças. Agora, elas lhe pertenciam e Loni despedaçava-se em euforia, submergindo em cada recordação. Seu corpo era o monumento, confundia-se com ele, preenchia-se dele. Naquele momento, o vácuo se transformava em matéria e o silêncio em um som estrepitante que vibrou no horizonte.

Como água evaporando de uma chaleira, mudando de estado, transformando-se em outra versão de si.   

Nota: este texto foi inspirado pelo filme Sans Soleil, de Chris Marker (1983).

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É verão e a hora lenta que sucede o almoço se arrasta feito fiapo de nuvem em céu claro, daqueles que parecem riscados de giz. A restinga cozinhando apática no sol,  as cigarras anunciando barulhentas o calor e a monofônica dinâmica das ondas, que explodem a algumas quadras de distância, pintam um quadro de inércia e desidratação.

Por todo balneário poeirento, pessoas cochilam o almoço enquanto varejeiras esverdeadas sobrevoam suas cozinhas, ocupadas. Bia encara  as próprias pernas projetadas contra a parede branca, em paralela harmonia à rede de balanço de indígenas estampas. Deitada de costas sobre o azulejo que resiste fresco e rígido ao mormaço leniente,  a garota aguarda o sono despregar-se de todos os seres e objetos que compõem o mundo, ao mesmo tempo em que observa a pele bronzeada e exposta pelo biquíni de formato triangular.

Assim de perto, é quase possível ver a flora de penugem dourada refletindo a luz homogênea e estourada daquela hora enfadonha, abastecida pelo primeiro alvoroço dos hormônios.  Com a unha do dedão, vai formando meias-luas aleatórias na coxa direita até conseguir um bocejo. Não. Dormir não. Decide encontrar uma pá de jardim e dar o fora dali.

Na garagem, a caixa de ferramentas repousa imunda debaixo do tanque, atrás de uma portinhola de madeira com dobradiças carcomidas pela maresia. Ao puxar a caixa, vê que ela está coberta de teias de aranha e hesita. Mais bocejos. A ideia de cochilar por alguns minutos não parece tão ruim; as beiradas de crochê da rede balançam-se preguiçosas, convidativas.

Não. Todos falavam que fechariam os olhos apenas para descansar e acabavam dormindo por horas. Até o relógio parecia operar sob aquele efeito entorpecente; seus ponteiros operavam pesados, reféns do soberano vespertino e glutão. Bia sacode o sono rasteiro e com movimentos bruscos enfia a mão na caixa de madeira, rompendo algumas teias e sentindo a poeira acumulada. Por fim, resgata seu troféu. Cavaria um buraco no extenso e desocupado terreno vizinho.

O projeto já vai adiantado quando Bia percebe alguém vindo em sua direção, uma garota ruiva e muito branca cuja fisionomia não reconhece. A garota pergunta o que ela está fazendo, mas não diz seu nome.  Bia, por sua vez,  conta-lhe sobre o plano e convida-a para ficar. A garota ruiva ri e diz que não pode ficar muito tempo no sol, ainda mais naquela hora. Bia não entende direito o que ela quer dizer com isso, mas associa a algo que ouviu de seu avô. O sol castiga antes das três.

A garota na bicicleta antiga decorada com fitas azuis e a chama para ir até sua casa. Bia responde que sim; o buraco, a pá e o sono esquecidos.  Feliz por inaugurar sua Caloi lilás aro 20, sai pela estrada de paralelepípedos empoeirados e segue animada aquela cascata de cabelos crespos, presos por uma trança lateral.

A casa da garota é uma estrutura alta de madeira vertical coberta por um telhado pontiagudo, contrastando com a geografia plana da região. Que engraçado, parece que foi plantada no meio do terreno. Bia percebe que ali paira um quê de estranheza e lembra-se das estórias infantis. Só faltam os doces.

Sob a protetora sombra do telhado, Bia repara que o rosto da garota é coberto por pequenas manchas amarronzadas. A novidade a pega de surpresa e ela prende a respiração, produzindo um suspiro seco que soa como um "ah". Como não viu antes? As centenas de minúsculos pontos pipocam por todo rosto de forma homogênea, variando em tons, formatos e tamanhos.

Como se já estivesse acostumada a lidar com tal reação, a garota declara horizontal: “São sardas”. Bia sente uma vibração estranha escalar as paredes do estômago, mas nada responde. Lembra-se da professora de biologia dizendo que em alguns países os habitantes não viam a luz do sol durante os meses de inverno e que geralmente tinham uma pigmentação diferente por conta da mutação genética. Nesses lugares era frio.

Apesar da estranheza em seu semblante, a garota parecia bastante à vontade naquele clima litorâneo abafado. Ela é magricela e usa uma regata xadrez esverdeada, o que ressalta ainda mais os cabelos bagunçados e as sardas. Seus ombros estão curvados como que por desleixo ou tédio.

A garota segura a trança com o braço direito, cruzando o outro sobre o abdômen para servir de apoio. Achei que você fosse mais legal, mas nada é dito. Bia solta uma risada nervosa e encara o chão: seus pés encardidos e queimados pelo sol contrastam com os da garota, que calçam havaianas azuis e são tão pálidos quanto os de um fantasma.

Uma mão ossuda e firme ergue seu queixo de forma rude, forçando-a a encarar olhos acinzentados. Bia repele o movimento de forma igualmente brusca, mas tem o impulso de respirar o cheiro que exala do pescoço da garota ruiva. Quente. Sem pensar muito a respeito, dá um passo, fecha os olhos e inala.

Os cabelos da garota cheiravam a temperos frescos, colhidos no quintal em dia de chuva.  Quando abre os olhos, percebe que estão a um palmo de distância. Sua respiração começa a ficar descompassada. A garota se inclina e encosta nos seus, lábios tão salgados que mais parecem carne viva, pulsante e recém-cortada.

Há movimento e uma mistura muito forte de sensações. Um tipo de pressão irradia do tronco e perfura todos os membros de seu corpo, forçando-a a experimentar uma necessidade até então desconhecida. Bia não sabe o que fazer com os braços, mas começa a movimentar a boca, tentando sugar o bafo quente e só para quando não consegue mais respirar. Se alguém acorda...

“Meu irmão saiu e minha tia dorme que nem um porco.” – Diz a garota ruiva enquanto a puxa para dentro da casa. As duas sobem rapidamente uma escada de madeira e Bia é levada até o último quarto de um corredor baixo e claustrofóbico. O segundo andar da casa cheira a roupa guardada e a verões já distantes.

As duas trancam a porta do quarto e encostam o ouvido na madeira, atentas, mas a praia toda é sono e digestão.  Deitadas na cama, viradas de frente uma para outra, Bia observa de perto as inúmeras sardas. Suas mãos tocam a pele quente da garota e as duas se beijam novamente enquanto as pernas se entrelaçam inquietas.

Bia lambe um pedaço de pele no pescoço e sente o mesmo gosto salgado. Era como se a garota ruiva houvesse passado dias a deriva, marinando tenra no oceano que estourava ali perto.

Tanto as paredes de madeira escura quanto a pilha de grossos cobertores que pendia do guarda-roupas semiaberto parece reverberar com os movimentos.   Há uma súbita movimentação no andar de baixo e o susto arranca Bia da agitação. Confusa, ela pula da cama, ajustando o biquíni sem olhar para a garota. Precisava respirar, dar o fora dali.  Abre a porta e desce as escadas sem medir o barulho.

Nas ruas, deserto. Mil anos se passaram, mas a sonolência amarelada ainda se agarrava à superfície do mundo, tal qual bolha de sabão que não quer voar. Esbaforida, sobre na bicicleta e perambula sem destino pelas quadras assimétricas daquele pedaço de mundo, ignorando os espasmos que emanam de seu interior. No quarto, imagens de si mesmo totalmente nua, mas ela segue pedalando.

Em casa, se tranca no banheiro. No espelho oval encara um rosto queimado de sol, emoldurado por cabelos lisos e amarelados. Gargalhadas estrepitosas emanam de repente de algum lugar na redondeza e Bia sente o coração palpitar, engolindo a saliva acumulada, salgada.

Ao retirar a parte de baixo do biquíni, observa um risco de secreção esbranquiçada.  Fecha os olhos e tem a impressão de que as sardas estão agora em seu próprio corpo, coladas sobre seu abdômen, movendo-se e formando complexas constelações.

Com os dedos médio e indicador da mão direita, começa a acariciar os poucos centímetros de pele úmida que ainda pulsam. Parece importante que os movimentos sejam suaves e constantes. A sensação aumenta exponencial, explodindo mais completa do que havia sido antes.

Bia deita no chão frio, estimulando o orgasmo que não cessa e cuja intensidade não diminui. Enquanto o mundo dorme, pesado e inerte sob um céu riscado de giz, sardas flutuam há um palmo de distância e Bia geme, desperta.

Londres, Horniman Museum gardens, 2012 - LOMO filme preto e branco ISO 400

O vento soprava rasteiro, curvando as espigas de trigo que encontrava pelo caminho e conferindo às fileiras da gramínea padrões ondulados, um quê de impressionismo. Bloqueando o sol com a mão direita, Lídia vê a estrada de ferro serpenteando até desaparecer no horizonte.

Logo à frente, a chácara brotava vacilante em tons de um verde pegajoso,  sugando a luz daquele começo de tarde enquanto as copas das árvores respondiam às condições climáticas do mundo exterior como se pertencessem a ele.

Para Lídia, o lugar sempre representara o  implacável manto de segredos e incertezas que cobria o mundo ao entardecer. Pisar naquele solo úmido era o mesmo que pisar nas fendas abissais do Pacífico.

Devagar, apoiada em uma árvore, ela tira o sapato e enfia os pés no barro preto, fecundo.   Imediatamente, o cheiro fica mais forte. Sua presença é notada.

Ela ouve o farfalhar manso dos galhos e folhas e se deixa envolver por uma brisa manhosa. As mechas mais teimosas de cabelo branco  conseguem se soltar do coque. Lídia sorri.

A chácara continuava sendo uma das fundações da existência na Terra. Era visível, porém, que o lugar rapidamente se deteriorava. Até o muro de tijolos queimados parecia contrair-se em direção ao centro, como se corroído por um dor pungente, regular.

Lídia sabia que aquela circunferência de irregularidade  logo deixaria de ser. O que viria depois era, por enquanto, vazio de significados.

Aquela sensação de ruína imediata a fez querer cantar. Ela desejou preencher cada canto escuro e mofado com uma melodia que falasse sobre a criação da noite e do dia. Os versos, aprendidos na juventude, fluíram soltos, formando curvas e coro com o vento, agora mais forte.

Girando, girando, girando.

Quanto mais Lídia cantava, mais o ambiente parecia despertar. O chão se movia sob seus pés e ela ouvia sussurros vindos de todas as direções. Palavras ecoavam de um presente remoto ou de um futuro distante, quase esquecido.

Pule. Pule. Pule. Pule. Então pule.

Neste momento, uma sensação de conforto profundo toma conta de seu corpo e ela tomba. Sente  a umidade que transborda do chão, que transborda das árvores como o suor de um corpo humano.

Sussurros ricocheteavam tão velozes que ela conseguia captar apenas o eco das últimas sílabas.

Tia. Tia. Tia. Tia. 

Deitada no tapete de folhas e galhos, Lídia continua respirando decomposição e renascimento.

Quando tenta se levantar, vê um garoto parado próximo à fenda no muro circular. Não consegue enxergar seu rosto, mas tem a impressão de que ele está miseravelmente confuso, como se procurasse algo.

Ela faz um esforço para ficar de pé. O movimento exige sua concentração e quando  percebe, o garoto desapareceu.

O vento já não ululava. Usando as árvores como apoio, ela caminha até o ponto em que o garoto aparecera minutos atrás. Em seu lugar, há uma pequena e trêmula samambaia.

"Quem é você, quem é você?"

"De onde vem e por que está aqui?"

A samambaia responde em linguagem de planta, balançando, aflita, suas frondes.

"Tudo bem, não precisa ficar agitado."

"Não consigo descobrir porque você está aqui, meu bem, mas não deve ser nada bom. É realmente um fato curioso. Este não é, de maneira alguma, um lugar apropriado para alguém como você passar o tempo."

"Vou te levar comigo. Vou te arrancar daqui enquanto este lugar ainda respira. Você parece tão perdido."

A raiz da planta deixa o solo úmido com extrema facilidade, acomodando-se nas mãos da velha.

A tarde já vai adiantada quando Lídia deixa o círculo de tijolos queimados. No mundo lá fora, as cigarras anunciam rítmicas o final de mais um ciclo, a hora mágica e sinistra na qual bruxarias tomam forma e trespassam o limite do incompreensível, aproximando-se curiosas da humanidade, que relaxa.

Um estampido seco reverbera pelo ar, interrompendo a sinfonia. Lídia encara o horizonte, sabendo que atrás de si repousa agora um campo de trigo, infinito em sua secura quebradiça.

A samambaia começa a pesar em seu colo. Ela respira fundo e continua caminhando.

junipo

Gui despencava em velocidade constante. Perdera a noção do tempo, mas concluiu estar preso em algum tipo de sonho maluco quando seu corpo misteriosamente alinhou-se na vertical e seus pés tocaram uma superfície molhada. Contrariando todas as leis de Newton, seu peso e velocidade não chegaram a sequer perturbar a água.

Olhou ao redor, mas não viu muito. Seus sentidos estavam descompassados e ele enxergou apenas uma luz estourada e alguns borrões.  Quando seu cérebro conseguiu se adaptar e distinguir formas mais nítidas, Gui percebeu que estava de pé no meio de um vasto oceano, e também que a única parte submersa de seu corpo era o tornozelo.

No horizonte, havia um gigantesco sol que coloria o oceano com tons de amarelo queimado, conferindo ao lugar um ar de pintura. O céu também deixava-se contagiar por aquela luz e as esparsas nuvens absorviam o sépia modorrento e crepuscular.

Seu efeito no lugar era quase nulo. O lugar, no entanto, exercia uma força esmagadora  sobre seu corpo, que parecia prestes a implodir. Arriscou alguns passos. Teve medo de ser engolido por aquele abismo de água, mas considerou que se ficasse parado congelaria.

“Gui”, disse um eco distante.

Virou-se rapidamente para o que pensou ser a direção do som, mas não havia ninguém.

“Que lugar é este?”, perguntou para o nada.

“Este lugar está logo abaixo do círculo. É uma realidade intermediária chamada JU NI PO, a terra do sol poente, onde tudo apenas permanece.” O visitante pronunciava as sílabas separadamente, com cuidado.

“Junipô? Como naquela canção famosa?”

No oeste bem distante, baby ô 

Gritei em vão pra alguém vir buscar (e me levar)

Pra terra do sol infinito ô 

Lá onde você deve estar

Pra terra de Junipô ô 

Lá onde você deve estar

Depois de um tempo, acrescentou: “Como faço pra sair daqui? Tô me sentindo estranho…”

“Não é tão simples assim, Gui. Sair nunca é tão fácil quanto entrar.”

“Olha, esse tipo de coisa não me ajuda. Preciso saber em qual direção seguir.”

“Todas as direções deste plano desembocam no mesmo lugar.”

Gui sentiu-se levemente irritado com aquelas afirmações vagas. Nunca entendeu porque as pessoas que conhecia não falavam coisas concretas como a grama é verde, o céu é azul, o norte é aqui e o sul ali…

Se bem que o céu em Junipô não era exatamente azul.

“Você precisa achar o Caronte”, terminou a frase junto com a voz do visitante, como se adivinhasse as palavras.

Virou-se de costas para o sol poente e começou a caminhar. O mar não tinha ondas, talvez por não ter um limite, uma costa. Era uma superfície perfeitamente plana que mais parecia uma imensa lona onde tons de amarelo e azul travavam uma guerra infinita.

À medida que caminhava, Gui sentiu que o oceano sob seus pés estava vazio. Tinha certeza de que era profundo além da imaginação, mas não percebia nada se mexer. Nenhum peixe nadava apressado e nenhuma bolha de ar flutuava desajeitada, denunciando alguma forma de vida.

Do que vale um oceano sem peixe?

Seria desagradável ficar ali por muito mais tempo.

Eventualmente avistou uma estrutura metálica colossal que parecia brotar indiferente da água. Parecia a carcaça esquelética semissubmersa de um navio outrora corpulento. Quando chegou bem perto, Gui viu que minúsculas conchas amarronzadas prendiam-se às partes que tocavam a água, porém uma rápida inspeção revelou um completo abandono por parte dos habitantes.

Lembrou-se, então, da única vez que visitara o oceano. Há três anos, em um domingo abafado no início do outono, Beatriz insistira que ele a acompanhasse em uma de suas visitas a uma cliente cuja casa ficava no litoral.

“É uma mansão na encosta de um morro, você vai gostar!”

Horas depois, desciam a trilha que desembocava em uma pequena baía de areia amarronzada. O céu tinha um aspecto triunfante, claro e límpido, quase sem nuvens. Os gritos agudos dos pássaros nativos, o cheiro forte de sal e os rítmicos estrondos das ondas compunham um universo temperamental que parecia prestes explodir.

Caminharam por toda a orla e resolveram fazer um piquenique sobre a formação rochosa que marcava uma das extremidades da praia. Enquanto observava as ondas quebrarem insistentes contra as rochas mais baixas e depois escorrerem rasgadas por entres as pontiagudas conchas, Gui devorava um sanduíche de atum e picles preparado na véspera.

“Mãe, não parece que tem um pulmão respirando por trás do movimento das ondas?”

A lembrança do episódio se desfez e Gui  lembrou-se da chácara e de como tinha ido parar em Junipô.

Olhou a estrutura e decidiu escalar a viga mais próxima, uma barra horizontal que não estava tão enferrujada. Fez os movimentos devagar, tomando cuidado para não se machucar nas extremidades calcificadas das conchas. Quando finalmente conseguiu se equilibrar, voltou a ouvir a voz do visitante, sempre uma oitava mais baixa do que a sua.

“Gui, você precisará transpor esse plano. Só assim estará livre e poderá retornar pela passagem que nos trouxe até aqui.”

“Tá bom. E como faço isso?”

“Você vai ter que decidir.”

“Decidir o que?”

“Este lugar é o ponto antes da bifurcação. Você está parado nele porque é só isso que ele permite: o não movimento, o imutável presente, o segundo antes da tempestade. Assim que você tomar uma decisão…”

Uma forte vibração dissipou as últimas palavras de seu interlocutor.

Um terremoto parecia se aproximar e toda a estrutura metálica reverberava com ele. Gui percebeu a água subitamente ameaçadora e agarrou-se na viga vertical mais próxima. Imaginou-se engolido por aquele mundo submarino e foi dominado por um medo primitivo.

Embora a superfície permanecesse calma, era possível perceber uma grande quantidade de água sendo deslocada nas profundezas. Algo estava se movendo debaixo da lona, vindo em sua direção.

O pânico havia se instalado por completo quando uma forma negra e extensa se materializou sob a fina membrana da superfície. A princípio, Gui achou que fosse uma baleia, mas logo percebeu estar enganado, pois o animal não tinha exatamente o mesmo formato e se movia com extrema rapidez.

Depois de um tempo na mesma posição, Gui conseguiu mover um dos braços e soltar-se da viga. Ao redor da estrutura metálica, o animal continuava a nadar, espreitando-o.

“Ele está esperando sua decisão.” Conseguiu antecipar que o visitante diria algo assim.

“Ele quem?”

“O Caronte. É ele que vai te atravessar.”

Só então percebeu que sua voz também tremia. Havia algo naquele lugar que o fazia  vibrar como as cordas de um instrumento musical.

Pule, disse o visitante.

Gui fechou os olhos, respirou fundo e mergulhou. Seu corpo submergiu por completo e ele ficou como que suspenso, á. Para sua surpresa, a temperatura da água estava agradável e a sensação de conforto que tomou conta dele o fez parar de tremer imediatamente. Depois de alguns segundos, abriu os olhos e enxergou o animal em toda sua extensão.

Automaticamente, seu cérebro vasculhou por palavras que pudessem descrever aquela criatura, mas não as encontrou. Imaginou se tratar de um dos seres pré-históricos, sobrevivente de um tempo ancestral no qual tudo era mar e o que não era ainda não existia. Um ser que foi criado durante a primeira tempestade.

Gui solta o ar que havia prendido antes do mergulho e diz: decidi voltar.

O Caronte se aproxima ameaçador e gigantesco, revelando uma bocarra cheia de dentes desalinhados. Gui o encara passivo e  apenas sente-se desmanchar naquele desconhecido em que havia tropeçado.