A batalha presente

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A tarde se arrastava gelada nas montanhas Hindu Kush, sul da província de Baghlan. Um vento gelado perturbava a crosta de poeira avermelhada que cobria o solo semiárido da região, formando padrões espiralados para em seguida dispersá-los.

Na saída da vila Nayi-e-Khomri, mais de cem homens reuniam-se para assistir a luta de cães, esporte não-oficial que havia sido reprimido pelo Taliban, mas que aos poucos voltara a ser praticado em todo território afegão, especialmente nos meses de inverno.

Os cães eram, em sua maioria, enormes e pesados kuchis ou cães pastores, e alguns valiam tanto quanto um carro. Os animais nunca lutavam até a morte e o confronto, embora violento e sem dúvida excitante para quem o assistia, durava até que um dos adversários fosse subjugado.

Aquele era um lugar de paradoxos.

Aylen patrulhava as ruas com mais seis combatentes, todas do TOSC. Duas delas estariam em casa em menos de um mês e Teena, a mais jovem, declarava que quando pisasse em solo americano gastaria sua bonificação inteira em um spa.

Apesar do frio e do pesado armamento que cada uma carregava, o tom animado da conversa fazia com que elas caminhassem distraídas por entre as esparsas habitações. Aylen, entretanto, sentia uma crescente nuvem de angústia tomar conta de seus pensamentos.

É só o vazio deste lugar, só o vazio. Tudo está certo. Repetiu o mantra algumas vezes, controlando a respiração e acompanhando, agora silenciosa, a conversa do grupo.

Logo encontraram quatro crianças afegãs que brincavam com um cachorro manco, cuja pele amarronzada parecia ter sido esticada ao máximo na tentativa de cobrir seu corpo quadrúpede.

As combatentes se aproximaram e puxaram conversa, oferecendo-lhes um punhado de doces coloridos. Doces coloridos eram recursos essenciais para qualquer membro do TOSC. A estratégia nunca funcionara, mas elas continuavam enchendo os bolsos ao deixar a base.

O cão, por sua vez, aproveitou a distração coletiva para mancar até o muro mais próximo e se deitar. Aylen, que acompanhava seus movimentos, notou que ele não tinha a orelha esquerda e que da direita sobrara apenas um toco de contorno irregular.

Perguntou, para ninguém em particular, se o cachorro tinha nome.

O garoto mais alto do grupo respondeu, ágil em seu dialeto, que era só um velho cachorro de briga.

Velho e aposentado, Alyen completou.

Lembrou-se então do romance O velho e o mar, de Ernest Hemingway, e decidiu nomear o animal como Santiago. O embate entre a resiliência desesperada do velho e a força indiferente da natureza, cuidadosamente descrito pelo autor, parecia corresponder à existência daquele animal.

Aylen se ajoelhou ao lado de Santiago, que levantou a cabeça em reconhecimento à proximidade, e deixou que ele cheirasse sua mão. Só então acariciou a pele retesada do pescoço, perguntando em voz baixa:

“Santiago, você gostaria de comer um enorme peixe suculento e recém-pescado no oceano?”

Santiago pareceu relaxar, fechando os olhos e esticando o corpo.

O ataque veio, feroz, neste momento.

Um enorme cão pastor atacara Santiago. De qual direção o monstro surgiu, Aylen não saberia dizer.

Após o choque inicial, instintivamente ela tentou tirá-lo de cima de Santiago, que gania e buscava, sem sucesso, revidar o ataque.  Agarrá-lo, no entanto, provou-se impossível, pois o cão não usava coleira e se movia com uma brutalidade extrema.

Tentando controlar os movimentos bruscos da besta, Aylen se desequilibrou e caiu. Só então se deu conta das vozes das outras combatentes. Elas tentavam lhe dizer alguma coisa, mas ela não tinha tempo. Tudo o que conseguia pensar era que a cada segundo Santiago ficava mais ferido.

Sentiu então alguém segurá-la e afastá-la da briga. Reconheceu Fanny, a líder do grupo, que pareceu gritar algum tipo de ordem.  Teena, então, atirou cinco vezes.

“Não mate, Santiago! Não mate ele!”

Era tarde.  Ambos os cachorros jaziam ensanguentados no mesmo chão indiferente.

Conseguiu se desvencilhar e ajoelhar-se novamente ao lado de Santiago, que arfava. Havia sangue por toda parte. Aylen começou a chorar enquanto examinava os ferimentos do animal prostrado a sua frente. Conjurou todas as forças para conter a emoção, mas as lágrimas rompiam tal qual rio represado que retoma seu curso natural.

Santiago não fora atingido pelos tiros de Teena, mas sua lombar e pelve estavam definitivamente quebradas. Além disso, havia uma imensa brecha em sua traqueia e severos cortes pelo corpo todo.  Removê-lo seria o mesmo que matá-lo.

Ouviu então vozes alteradas e foi forçada a tomar consciência do que acontecia ao seu redor. Fanny discutia com tajiques armados  enquanto o resto do Time se posicionava defensivamente e pedia reforço pelos walkies.

Fanny tentava dizer que o kuchi havia atacado uma combatente, sendo abatido por esse motivo. O homem não parecia interessado no argumento, revidando agressivamente e demandando uma compensação imediata pelo prejuízo. Se a situação atingisse um ponto sem volta, a chance de saírem vivas dali era mínima, pois para cada uma delas havia, no mínimo, dez homens, a maioria armada.

Sentia o medo das companheiras e a fúria de Teena e Johanne. Esses sentimentos não são meus, pensou, mas não conseguia evitar ser bombardeada por eles.  A confusão emocional mesclava-se à tensão que pairava no ar e ao gosto amargo que experimentava ao engolir a saliva.

A discussão continuava. Agora Fanny tentava dizer que o dono do cão pastor seria ressarcido pelo exército americano.

O ritmo dos batimentos cardíacos de Santiago estava diminuindo. Aylen não conseguiu lembrar-se de nenhuma prece específica para momentos conturbados e desesperadores, então disse apenas:

“Santiago, aonde quer que você vá, esteja em paz.”

Limpou as lágrimas com o lenço que cobria seus cabelos, levantou e posicionou-se ao lado de Teena.

“Se eu morrer aqui por causa de um vira-latas sarnento, Aylen, eu juro, juro que volto pra te assombrar. Espero que você saiba disso.”

Ela não respondeu, apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça.

Em menos de cinco minutos, a infantaria chegou em jipes e comboios camuflados, dispersando a multidão de tajiques. A negociação ainda continuou por algum tempo. Aylen não conseguiu acompanhar todas as ameaças que foram trocadas, pois começou lentamente a sentir as mordidas e arranhões.

A intensidade da dor que emanava de seus braços foi aumentando até que ela perdeu a consciência. Quando acordou, já estava na enfermaria, com os ferimentos limpos e cobertos por gazes.

No dia seguinte, Fanny avisou que descrevera minuciosamente sua imprudência e insubordinação no relatório que entregara aos superiores. Uma investigação estava sendo conduzida com as testemunhas. Aylen teria uma chance de se defender em uma audiência, assim que fosse liberada.

Ok.

“Aylen, o que aconteceu contigo ontem, mulher? Nunca te vi agir daquele jeito. O jeito que tu se debatia por causa daquele cachorro, parecia que tava possuída...”

“Eu não lembro direito...”

“Acho melhor inventar uma desculpa esfarrapada melhor do que essa, se não vão comer teu fígado naquela audiência.”

Como não obteve resposta, Fanny continuou falando:

“... tu colocou a vida de todo mundo em risco. A Johanne tá querendo te dar um pescoção. Eu tentei convencer ela a te deixar em paz e esperar a audiência, mas não sei se funcionou.”

“Sempre houve risco.”

“Não daquele jeito, porra.”

“Não daquele jeito.” Aylen repetiu. “Mas foi tudo tão rápido...”

“A Teena também fez um relatório.”

“É? E o que ela escreveu nele?”

“Que te viu falando com o vira-latas e que tu queria trazer ele de volta pra base. Virou piada, é claro. Mas eu tô te dizendo, Aylen, é melhor negar isso tudo. ”

“E se eu não negar, o que vão fazer? Me mandar pro Iraque?”

Ambas deram risadas.

Ao deixar o quarto, Fanny ouviu a voz de Aylen.

“O nome dele era Santiago.”

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